sábado, 15 de março de 2008

SOBRE ANNA: Faz-de-Conta.

Anna ainda ouvia os resmungos da Sra.Gossip, enquanto deixava para trás a viela. Ela parecia dizer alguma coisa para Zeus, o gato mais velho – provavelmente estava repreendendo-o pelo desaparecimento de Dionísio. Anna não compreendia o dialeto estranho que a Sra.Gossip usava. Conversar com animais não parecia uma atitude das mais compreensíveis decerto. Anna agora pensava consigo:”para onde vou?”. Para aqueles que não sabem aonde ir, o mundo parecia muito maior, imaginava. Anna sentia-se pequenina, quase ínfima diante dele. Esta sensação, ironicamente só crescia com o tempo. Anna estava a duas quadras do colégio onde estudava. Apressou o passo, apesar das pernas já apresentarem um formigamento incômodo. Eram quase 6:00 horas da noite. Não tardaria para o dia cometer suicídio. Poderia esperar pelo pôr-do-sol sentada nas escadarias do colégio. Não era uma má idéia afinal.
Anna encontrou o portão do colégio encostado; seguro apenas por um lacre simplório. Provavelmente o zelador responsável esquecera de fechá-lo corretamente(”ou estava bêbado demais para lembrar-se de detalhes”) - Anna cogitava a hipótese constantemente. Sem esforço Anna rompeu o lacre improvisado. Mais alguns passos dali estavam as escadarias. Anna sentou-se, abriu a bolsa, mas não restara um único maço de cigarros. Amaldiçoou a Sorte até sua quinta geração por isso. Precisava fumar. Nervosa começou a andar em círculos – gastou um pouco mais a sola do coturno e ficou tonta poucos minutos depois. Sentou-se novamente. Pegou a fotografia do balanço e observando cuidadosamente, notou que havia mais alguém ali. Não dava para enxergá-la direito, pois o foco estava distorcido. Solitude Seven. Sim, ela era mesmo - Anna não tinha dúvidas. Tratava-se de uma amiga que ela conhecera no jardim de infância. A única amiga que Anna tivera a vida inteira. Conheceram-se logo após o triste fato que envolveu a mãe de Anna - no playground daquele mesmo colégio. Anna e Solitude passavam a maior parte do tempo juntas, brincando no escorregador e quando se cansavam, sentavam-se no balanço esperando o sinal que anunciava o término das aulas. Solitude Seven era maior que Anna. Sempre fora. Tinha uma pele alvíssima, cabelos muito negros e lisos, olhos pequenos e fundos e uma aparência que oscilava conforme o passar das horas – além disso era alguns anos mais velha que Anna. Não era preciso mais do que isso para descrevê-la. Anna e Solitude estudaram juntas até o início do ginásio. Anna arranjou o primeiro namorado. Estava feliz. Não durou...Era uma vez. Após alguns meses o encanto quebrou-se, o príncipe transformou-se num sapo asqueroso e Solitude voltou a visitá-la freqüentemente – contos de fadas não duravam. Anna sentira sua falta – não cansava-se de repetir quando encontravam-se no pátio do colégio. Eram mais do que amigas; eram cúmplices inseparáveis. Nela Anna dera seu primeiro beijo. Vieram outros beijos, outras bocas, outros sabores, outros príncipes e sapos também, mas o gostinho de Solitude se alojara ali. Permanecera. Não dava sinais de que iria embora. Num domingo, um feriado, ou qualquer dia em que um minuto fosse muito, e um dia uma sentença, aquele gosto acre reaparecia. Anna sentia ânsia. Sentia medo. Sentia-se só...Mas logo esquecia.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

SOBRE ANNA: Nuvens.

Após um silêncio que duraria segundos-luz, Anna disse pausadamente:

- Faz onze anos...Onze anos e meio senhora Handsome.

- Sei...Desculpe filha, quando chegares a esta idade verás que o tempo transforma a memória num quadro desbotado, pintado por um artista anônimo – a expressão de pesar no rosto da Sra.Handsome não dava margem há qualquer dúvida.

- Tchau senhora Handsome – Anna esforçou-se para parecer resoluta.

- Ah menina! Vais mesmo deixar o chá esfriar? – Anna respondeu com certa dificuldade:

- -Não dá...Prometo que um dia tomarei seu chá Sra.Handsome – para Anna prometer era auto-suficiente. O cumprimento da promessa era irrelevante.

- Que tipo de chá prefere querida? – disse a Sra.Handsome. Anna preferia café, mas parecia tão deselegante a idéia que, embora titubeando, resolveu enfim dizer:

- Quem sabe um de nimbos com gotas de orvalho? – a idéia fazia-lhe cócegas. Acenou abruptamente para a Sra.Handsome e partiu, deixando uma promessa que não conseguiria cumprir.

- Ah! – a Sra.Handsome fez um movimento brusco com a mão e continuou:

- Cuide-se e não esqueça de mandar lembranças a teu pai – depois acenou de maneira desajeitada, um tanto exagerada.

Caminhando com dificuldades a simpática velhinha afastou-se lentamente do parapeito, adentrou a cozinha e encheu uma pequena xícara de chá até a borda, despejou um pequeno pedaço de torrão de açúcar, dirigiu-se até a sala de estar, sentou-se numa poltrona carmim; degustou o chá em pequenos goles, suspirou, até que seus olhos cansados foram invadidos por lembranças: vozes, sons, cores, cheiros e sabores permeavam cada canto do cômodo agora. A visão de uma escrivaninha solitária continha a lembrança mais significativa.

Arthur Cloud era o arquétipo do amante ideal. Alto, demasiado belo e engraçado, não obstante alvo dos olhares lascivos das jovens da região, despertava suspiros onde houvesse uma jovem escrava das traquinagens de Eros. Ele sabia disso. No entanto, não parecia importar-se muito com o fato, uma vez que seus pensamentos estavam sempre voltados para a música e o céu; mais precisamente um pedacinho especial dele: as nuvens. Tocava violão numa época em que a palavra músico era sinônimo de vagabundagem, uma época não tão distante. Onde houvesse uma seresta, um coração apaixonado, algumas moedas e um pouco de vinho e gratidão, lá estava Arthur Cloud. Inclusive, foi numa dessas serestas madrugais que ele avistou por um instante o que duraria anos; o sorriso que conseguia realizar o impossível: enrubescer sua face dotada da dissimulação típica dos exímios galanteadores. A beleza da jovem Eugênia Handsome era capaz de transformar o mais selvagem dos lobos num cordeirinho domesticado. E assim aconteceu: Arthur Cloud conseguiu um emprego no correio, fez a barba, colocou o melhor paletó e chapéu que possuía e resolveu cortejá-la. Após muita insistência e uma infinidade de tolices cometidas, pois é sábio dizer que o amor transforma os homens em tolos e, tolos não sabem o que fazem – sabem apenas o que sentem, às vezes nada disso, Arthur Cloud conseguiu finalmente convencê-la à dar um passeio no cume de Anesthesia.
O lugar pareceu um tanto inóspito a princípio para Eugênia, embora tivessem uma visão privilegiada da cidadezinha. Arthur jurava que fora capaz de acertar os vitrais decorados com pássaros da paróquia, utilizando apenas uma pedra e um bodoque construído vulgarmente. Estória que se dispunha a contar para todos aqueles que quisessem ouvir. Acreditar nela não era necessário. Assim passaram-se algumas horas: Arthur vangloriando-se por feitos quixotescos e a bela Eugênia sentada na grama sorrindo. Quando o Sol já bocejava impaciente e entediado, Arthur de repente agachou-se, aproximou-se do rosto de Eugênia e quase sussurrando-lhe indagou:

- Já Mordestes uma nuvem, senhorita? – os olhos de Arthur pareciam maiores vistos daquela distância.

- Hã? – Eugênia não compreendia o que acabara de ouvir.

- Olhe para elas! Não parecem saborosas?! – Arthur parecia embriagado pelas próprias exclamações – Ali! Olhe! – insistiu.

Eugênia inclinou o pescoço para olhá-las quando foi surpreendida por um beijo. Ela hesitou, seus músculos se enrijeceram, o coração palpitou, mas logo uma sensação de torpor agradável invadiu seu corpo. O que era aquilo afinal? De fato, as nuvens tinham sabor. Um sabor que imitava essências de nimbos e saliva fielmente. O corpo dela desfaleceu por um instante, Arthur Cloud então passou as mãos grandes e calejadas nos cabelos da jovem e retirou pequenas pétalas de Dente-de-Leão que insistiam em se alojar ali. Logo, o corpo pesado de Arthur encontrava-se do lado do corpo delicado e leve de Eugênia. As nuvens foram se distanciando do céu e os dois ali ficaram, deitados, enquanto seus corpos entrelaçavam-se refletindo abóbodas coloridas: uma azul a princípio, logo depois laranja e, por fim uma com contornos de um roxo crepuscular imponente. Depois daquele dia não é difícil imaginar o que aconteceu. Arthur Cloud casou-se com Eugênia Handsome, contrariando a vontade do pai da jovem que lamentava-se pelo dote ínfimo, e a custo de muitas horas extras conseguiu realizar o sonho da esposa: comprou uma casinha com um jardim improvisado repleto de girassóis e assim os dois viveram felizes para sempre. Bom, pelo menos enquanto durou os cinqüenta e sete invernos e incontáveis primaveras de suas vidas. Não tiveram filhos. Um desgosto para o pai da jovem que ansiava por um varão: desejava ensiná-lo a pescar - tudo que aprendera; ter de volta os anos que a vida lhe roubara. A paixão que sentiam naturalmente arrefeceu com o tempo; deu lugar a outro sentimento. Um sentimento que sobrepujava qualquer outro que já sentiram.
Numa manhã do quinqüagésimo sétimo inverno encontraram o corpo de Arthur Cloud inerte. Os olhos fixos em algum ponto longínquo do céu, deitado na neve, o rosto pálido esboçava um sorriso intrigante. Não haviam sinais de violência – aparentemente seu coração velho enfim se cansara. Eugênia não chorou durante o velório e o cortejo fúnebre inteiro do marido, embora o abatimento em seu rosto lutasse bravamente contra isso. O silêncio abafava o som do sofrimento; não silenciava-o. Nada o faria. Durante uma semana não apareceu uma única nuvem no céu de Anesthesia. Eugênia decidiu que preservaria a memória do marido. Assim fizera: nada foi modificado desde aquele dia; a escrivaninha, a fotografia de Eugênia vestida de noiva no centro dela, a estante cheia de livros referentes a aviação e alguns contos de autores obscuros, o violão velho empenado com as cordas enferrujadas, além do chapéu e a cigarreira que ele costumava usar - a mesma que Eugênia odiava – culpava-a por levá-lo embora. Este talvez fosse o único dos vícios que Arthur Cloud não conseguiu abandonar. Eugênia Handsome tinha uma força sobre-humana diziam os amigos mais próximos do casal. Embora não houvesse um único ano, mês e dia, que Eugênia Handsome não pensasse nele enquanto olhava abobada a abóboda matinal pelo parapeito do sobrado. Esta saudade, este aperto no coração vazio que sentia, pelo nome de Amor atendia.

A Sra.Handsome ainda atordoada pelas lembranças levantou-se apressadamente, tropeçando alcançou um corredor vazio; estava muito escuro e não havia qualquer vestígio de uma luz alentadora. Ainda tropeçando tateou as paredes e constatou que havia alguma coisa dependurada nelas. Apoiou-se numa delas e ficou ali alguns instantes. Ofegava, o coração batia descompassadamente. Sentiu o cheiro de rosas e procurou acalmar-se. Logo uma luz tímida iluminou o corredor revelando uma galeria de quadros antigos. A Sra.Handsome notou que estava presente em todas as pinturas. Na mais antiga carregava um balão no formato de um coração azul. Parecia feliz. Fora feliz de fato. Olhou para eles extasiada e no instante seguinte ouviu um ruído. Havia mais alguém no corredor: ”Como?” - Eugênia Hansome indagava-se. Caminhou alguns passos até avistar uma garotinha sorridente carregando um balão no formato de um coração azul. A garotinha acenou brevemente e lhe disse alguma coisa inaudível. Esforçando-se ao limite a Sra.Handsome seguiu-a até chegarem a um túnel. Ela então olhou à sua volta, pegou na mão da garotinha, e seguiram adiante. Não havia uma luz no fim dele.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

SOBRE ANNA: As Causas e Defeitos

Enquanto afastava-se dos arredores do centro da cidadezinha, Anna sentia que estava cada vez mais perto de si – uma sensação estranhamente agradável. Anna atravessava um beco lúgubre e apertado; nele mal cabia a anágua do vestido preto bordado caprichosamente; cheio de rendas meticulosamente tecidas por aranhas prendadas(na verdade, velhas costureiras, mas Anna insistia em chamá-las assim) O vestido e o coturno preto conferiam um caráter sóbrio, peculiar e anacrônico a bela jovem. Anna parecia uma camponesa saída de algum conto dos“Irmãos Grimm”. Ela não era muito alta, mas o salto do coturno consolava os pezinhos ambiciosos. Decerto, a beleza exótica da jovem era notável. Uma pequena pinta em forma de meia lua logo abaixo do olho esquerdo, realçava tal característica. Um pontinho preto solitário no rosto pálido e inexpressivo. As bifurcações do beco tornaram-se maiores, até acabarem numa viela cercada por casas antigas; aquelas com sobrados decorados com arranjos de flores(um indício da primavera esquecida), fissuras semelhantes a rugas, ervas daninhas e trepadeiras que cobrem os muros. Nas paredes limbo abundante; e a ferrugem avançada dos portões indicavam a senilidade das construções. As casas já eram senhoras. Anna caminhou alguns passos, foi quando ouviu uma voz rouca chamar-lhe:

- Anna! Ei! Para onde vais tão cabisbaixa, filha?

Anna respondeu hesitante:- sei lá! – num misto de sinceridade e aflição - Logo, uma velhinha simpática debruçou-se sobre o parapeito do sobrado.

Eugênia Handsome vivia em Anesthesia há vários anos. Anna não sabia a idade dela – ninguém sabia. Diziam que ela era mais velha que a cidadezinha, mas não podiam afirmar com certeza. Sempre fora gentil com todos e era muito querida pelos vizinhos; exceto uma, conforme veremos adiante. Viúva e solitária, passava as tardes regando os girassóis do jardim improvisado no fundo do quintal; varrendo a varanda ou indagando os transeuntes a respeito de saúde, família, tempo e outras trivialidades. Vestindo uma camisola surrada, um chapéu engraçado e sandálias brancas, parecia a avó ideal. Sonolenta, a velhinha judia continuou:

-“Sei Lá” fica muito longe querida. Por que não entra e toma um chá comigo? Prepararei alguns bolinhos de chuva em um minuto - Asmática, ofegou durante alguns segundos e sorriu de maneira benevolente para Anna. Anna olhou para os lados à espera de algum pretexto, titubeou por um instante e respondeu:

- Desculpe Sra.Handsome. Estou com pressa.

- Vocês jovens...Sempre apressados! No entanto, sempre chegam atrasados - a Sra.Handsome balançava a cabeça consternada. De repente, uma terceira voz; esganiçada, com um sotaque esquisito e um timbre médio-grave inconfundível invadiu o ambiente:

- DIONÍSIO! DIONÍSIO! Onde estás você menino? - Anna agora notara que o som vinha do quintal vizinho à Sra.Handsome. Ouviu um rangido, viu o portão de ferro aberto e percebeu a presença de uma senhora de meia-idade magra e alta. Tinha olhos de coruja e um nariz fino, avantajado; o cabelo preto preso num coque, duas argolas douradas nas orelhas e vestia um vestido roxo-azulado.

Marlene Gossip mudara-se há pouco tempo para Anesthesia. Ao contrário da Sra.Hansome estava sempre mal-humorada. Queixava-se pelo descaso da prefeitura local - segundo ela as calçadas imundas não tardariam à trazer a peste para a cidadezinha. Havia um certo exagero nos comentários ácidos vindos daquela boca. Marlene Gossip não hesitava em utilizar as hipérboles mais absurdas para alarmar os cidadãos do suposto perigo que corriam. A maioria da população considerava-lhe uma louca decrépita – alguns mais afoitos, uma bruxa, para o resto era apenas um senhora excêntrica. Anna considerava válida qualquer uma das opções. O fato era reforçado pelos estranhos companheiros dela: 13 gatos. Dionísio era o caçula dos treze e estava desaparecido desde a meia-noite passada. Cinzento como uma nuvem nublada, possuía orelhas pontiagudas e pequenas, olhos curiosamente distintos: um azul turquesa e outro verde gelatina. Astuto, ágil e irrequieto, gostava de brincar com os insetos que encontrava no quintal. Todavia, logo entediava-se e raramente não matava as pobres criaturas. Marlene Gossip nervosa e inconsolável, virou-se para a Sra.Handsome e indagou:

- Vistes meu pobre Dionísio, Eugênia?! - num tom murmurante, quase patético!.

- Oras! Deve estar se divertindo com alguma bacante! – respondeu irônica a Sra.Handsome. Marlene Gossip nascera em Atenas.

- Acalme-se.

- Humpf! – Marlene Gossip não gostou nada da piadinha. Anna abaixou a cabeça e riu baixinho, embora não entendesse completamente o ocorrido. Quando levantou a cabeça, viu os olhos de rapina de Marlene Gossip na sua direção. Assustadores, fitavam obsessivamente os dela. Anna sentiu que não conseguiria fitá-los por muito tempo. A sua garganta foi consumida por um sabor amargo e desagradável. Estava hipnotizada. Foi despertada do transe pela voz rouca e sussurrante da Sra.Handsome:

- Anna! Venha para cá menina...Vamos! – a Sra. Handsome tossia compulsivamente.

- Não, me desculpe, mas hoje eu realmente não posso – Anna olhou os arredores e não viu Marlene Gossip. A Sra.Handsome interrompeu a investigação de Anna:

- Esqueça aquela chata! Como vais teu pai mocinha? – indagou serenamente, com um semblante que deixava Anna constrangida, a Sra. Handsome.

- Na mesma... - o desapontamento de Anna era digno de complacência. A Sra.Handsome pensou por um instante:

- Hmm...Compreendo. Quanto tempo faz? Nove anos?

Anna como num passe de mágica, encontrava-se no seu quarto chorando. Balbuciava as palavras,”mamãe não vá”repetidamente. O pai tentava consolá-la em vão. A expressão gélida, apática e mórbida não dava sinais de mudança. Ele vagava pela casa como um fantasma assustado. Catatônico, observava o retrato da esposa que tanto amara um dia. Abria as janelas e deixava que o vento levasse o resto do sopro vital que ainda restava-lhe. Depois daquele dia fatídico, restara-lhe muito pouco; apenas lembranças, fumaça e desespero. Tornou-se um homem frio e lacônico, que limitava-se a cumprimentar a filha acenando timidamente com a cabeça. O silêncio ensurdecedor do jantar tirava o apetite de Anna. O pai comia sozinho, mastigando lentamente, como se fosse um condenado recebendo a última refeição. Anna não suportava mais olhar para o pai que definhava a olhos nus e negros. Inclusive, chegara a sentir saudades dos sermões dele. Anna ligava o aparelho de som num volume demasiado alto, faltava ao colégio, fumava, fazia tatuagens, colocava piercings, tingia os cabelos, pintava as unhas e as pálpebras de preto, rabiscava as paredes brancas do quarto com giz vermelho, mas nada chamava a atenção do pai. Nada...Absolutamente nada – nem as marcas nos pulsos. Anna passava a maior parte do dia no quarto trancada, com as janelas fechadas, para que a luz do sol não a incomodasse. Agachava-se no canto da parede, fechava os olhos e começava a cantar uma canção bem baixinho:”isso é apenas um sonho ruim, isso é apenas um sonho ruim, isso é apenas um sonho ruim, isso é ape...” - Então Anna acordou.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

E ELE DISSE AH DEUS!

Hoje é mais um dia ruim apenas, é que às vezes Ele esquece que as coisas sempre foram assim.


P.S: Imagem por Rafaello, amigo, quixotista, artista e pessoa excepcionais.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

MAPA ASTRAL

Asteróide B está situado na Nebulosa de Andrômeda, assim que atravessamos o rodoanel de Saturno. É preciso cuidado com os tubarões-satélite, uma vez que o mar sideral não está para peixe, tampouco para os de Peixes. A Lua lava suas mãos com as marés, portanto atenção redobrada neste trecho. Caso chegue a este ponto salvo(não garanto a sanidade do viajante), basta uma corrida no vácuo, pois logo após uma placa com os dizeres "Posto Black Hole a 180.000.000 KM", haverá um atalho: Asteróide B estará a apenas 360.000 KM luz do lado escuro da Lua.

BEM-VINDO, VOCÊ ESTÁ EM SOLO ASTERISCO E PONTO*

P.S: Di’stante é pisciano, no entanto não sabe nadar e aquários lhe causam hidrofobia; assistia Cavaleiros do Zodíaco na falecida Rede Manchete(que Zeus a tenha!), mas é cético com relação a horóscopos e mapas astrais. Resiste firmemente às investidas de Lis, flor e estrela, moradora de Asteróide B e integrante zen-mor dos membros da Luz, que insiste em lhe construir um mapa astral.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

SOBRE ANNA

Anna Lou esquecera os óculos em cima do criado-mudo. Anna sempre enxergou bem, porém acreditava que os óculos davam-lhe credibilidade. Pessoas que usam óculos parecem mais inteligentes e confiáveis, dizia para si mesma. O aspecto visual também contava, pois sentia-se mais“interessante”quando usava-os. Anna estava certa. No entanto, Anna não era inteligente. Não gostava de pensar. Pensar deixava-lhe confusa. Anna era assim. Todavia, era confiável...Contanto que a ocasião permitisse, é claro!. Afinal, sabia que existia uma sensível diferença entre o que se pensa e o que deve se dizer. Orgulhava-se disso. Sentada no banco de uma praça, Anna mascava um chiclete freneticamente. Parecia ansiosa...E não estava sozinha. Alguns pombos faziam-lhe companhia. Esperava que a“Sorte”encontrasse-lhe. Quem sabe até, acenasse-lhe e sorrisse. Olhou para o relógio. Ela estava atrasada. Os olhos de Anna não eram grandes. Embora escondessem uma melancolia tênue e aconchegante, eram claros como uma manhã ociosa de novembro. Mas por algum motivo ainda desconhecido, estavam nublados naquela tarde. Contrastavam com os cabelos tingidos de maneira negligente e heterogênea: fios ora arroxeados, ora violetas, ora em tons de vinho embriagante; longos, ocultavam a inscrição”Carpe Diem”que ela fizera na nuca meses atrás. Possuíam um cheiro peculiar. Não era forte, sequer suave – era apenas peculiar. O Ocaso já acariciava-lhe a face pálida quando Anna cansou-se de esperar e decidiu caminhar sem direção. A estrada parecia-lhe mais estreita que o habitual. Enquanto caminhava, Anna observava cuidadosamente o letreiro hollywoodiano da cidade.

Anesthesia era uma cidadezinha situada nos limites de Nowhere e Anything. Estimava-se que a população já ultrapassara a casa dos 15.000 habitantes. Embora as autoridades locais negassem, ainda haviam resquícios de um pseudocoronelismo velado na administração vigente. O prefeito defendia-se dizendo que tratava-se apenas de intrigas da oposição. A primeira dama com o bom senso que é inerente as mulheres, aconselhava-o a contratar um novo assessor de imprensa. A sensatez é uma qualidade feminina. O artigo comprova a afirmação. Como toda cidadezinha que se preze, Anesthesia possuía botecos(poderia encontrá-los em qualquer esquina. Caso não encontrasse, eles encontrariam-lhe), farmácias, mercearias, padarias, um posto de gasolina, locadoras de vídeo, um supermercado, além dos estabelecimentos típicos à qualquer cidadezinha do interior. No ocaso do dia via-se pessoas sentadas na calçada, divagando a respeito da vida alheia, donas de casa lavando roupas, estendendo-as em varáis improvisados, homens lavando carros, crianças empinando pipas, jogando calçados pelo cadarço a fios de alta tensão - Enfim, ali encontraríamos tudo que pudesse ser encontrado numa cidadezinha chamada Anesthesia. Tudo. O ar de Anesthesia estava impregnado de provincianismo há anos. Os dias eram longos e extenuantes. As noites curtas demais para sonhar; sempre mudas, o que perturbava demasiadamente Anna. No silêncio podia ouvir seus pensamentos. Eles cheiravam ópio. Os cães vira-latas não faziam nenhuma objeção a lei do silêncio.
Anna sentira-se entediada pela manhã e indagava-se por quanto tempo ainda sentiria-se assim. Dobrou uma esquina e avistou a padaria”Dreams Store”. Talvez não fosse má idéia comprar alguns sonhos. Sonhos...Não tinha muitos, mas neles era muitas. Anna agora lembrava-se de uma antiga revista que lera:”Quando você sonha, às vezes você se lembra. Quando você acorda, você sempre se esquece”. ”Sonhemos acordados então”, Anna resmungou indignada. Ela existia, e isso bastava-lhe – pensou ponderada. Nostálgica, lembrava-se da época em que tinha sete anos de idade. O pai dissera-lhe certa vez que o número sete significa perfeição. Acariciou o pingente extravagante do colar que usava, abriu a bolsa e, tateando incerta, encontrou alguma coisa no meio dos maços de cigarro usados. Era uma fotografia. A garotinha parecia-lhe familiar. No verso do retrato estava escrito à nanquim os dizeres:”Janeiro 1979 - Anna no balanço”. Anna sorriu para a garotinha e lentamente voltou a caminhar. Era janeiro, tudo era perfeito. Por um momento Anna acreditou que seria feliz. Estava quase certa.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

MELISSA (IN)VERSO

Melissa, é isso que te deixa triste?
É isso que te faz sofrer?
É isso que você quer?

Eu que por tantas vezes violentei sua boca,
Sussurrei poesias profanas em seus ouvidos,
Tirei sua roupa, rocei com o nariz seu umbigo(o centro do meu mundo),
Enquanto você, indiferente e fria,
Como quem não está nem aí nem ali nem aqui,
Desdenhava do meu desejo com risos e ironia – não entendo.

Rapazes, mulheres, homens velhos e moças,
Buscam abrigo no meio de suas coxas.
Você não escolhe credo, idade, raça, sexo ou cor.
Hoje empresta aos outros aquilo que já foi meu.
Todavia, não está feliz – ouço sua dor.

Eu que punha minha cabeça em seus seios, meu travesseiro,
E dormia fatigado, sei.
O meu sono despertava complacência em ti.
De manhã, acordava com um gosto salgado nos lábios.
Eram lágrimas, eu já sabia.
Eram as suas e eu já as adotara como as minhas.
O odor de ópio no quarto, causava-me ânsia...Uma agonia sem fim.
Doía-me vê-la assim.

Melissa, concubina, esta tristeza cinza não combina com o seu cabelo rosa.
À noite, você tranca-se no banheiro, olha-se no espelho e o medo reflete:
Medo do tempo. Medo da gravidade. Medo de ficar sozinha.
Medo de sentir-se só...Medo. Medo outra vez. Medo sete vezes.
Ele não te deixa dormir, tampouco sonhar;
Puxa seus cobertores, veste suas roupas e te deixa nua...Nua e Só...
(não consigo mesmo!)

Eu, ingênuo, tolo e infantil, um dia acreditei
Que fechando as janelas do quarto impediria,
Que"insetos"hostis te picassem.
Esqueci, não sabia ou queria saber,
Que escondia agulhas na bolsa carmim.
Melissa, é Isso que te deixa triste.
É por Isso que sofre.
Não é Isso que você quer – você não sabe o que quer...
Oras Isso, oras Essa!

Melissa: deixa Disso.