domingo, 28 de outubro de 2007

O PRESENTE DE SATURNO

36...432...1.728...13.356...315.576...18.934.560...Hmm...1.136.073.600. Enrolada numa toalha Laura resolvia cálculos no espelho embaçado do banheiro. Os lábios roxos e murchos, acompanhavam o ritmo frenético do dedo indicador direito. Os olhos, fixos, pareciam fora de órbita. Laura abaixou a cabeça, ofegou, expirou vapor na parte inferior do espelho e rapidamente traçou uma linha reta – abaixo dela escreveu o resultado em algarismos romanos. Laura comemorava trinta e seis janeiros naquela manhã de agosto. Assim que concluiu com êxito a eqüação, saiu do banheiro, desviou dos objetos vindos de um planetário espalhados pela sala - trancou-se no quarto. Precisava aquecer-se. A noite passada fizera 3 graus, a água por pouco não congelara nos canos – Laura sentiu frio, muito frio, sua alma encolheu-se e o quarto transformou-se numa verdadeira câmara frigorífica. O inverno tingira de branco a paisagem, obrigara-na a abrir o guarda-roupa, violara seus domínios; sentava-se ao lado dela na lareira ou na mesa durante o café da manhã. Como ela o odiava! Ele sempre lhe trazia lembranças; um sabe-sei-lá-o-quê que a devorava por dentro. O aniversário reforçava esta sensação. Laura secou os cabelos curtos tingidos de vermelho, pôs a calça pesada, duas malhas e uma blusa de lã verde; colocou as meias sujas de cera amarela e calçou as pantufas de urso. Ajeitou os óculos. Viu que o rádio-relógio apontava 8:15. Não conteve sua irritação, foi até a janela e esbravejou: - SOL?! É, VOCÊ MESMO SEU PREGUIÇOSO! Já está na hora de acordar, não acha?! – tentava ser diplomática. Uma luz frágil que entrava pelas frestas da janela foi a única resposta que obteve. De repente, pensou em como chegara até ali – viera montada em seus sonhos. Laura estava sozinha num observatório precário, numa terra desconhecida, fazia frio e não restara uma única barra de chocolate. Ela ainda podia se lembrar do dia em que pediu ao pai uma luneta de presente de aniversário – faria doze anos naquele dia. O pai riu, disse que uma bicicleta nova seria mais conveniente para uma mocinha. Fizera questão de ressaltar o”mocinha”. Na data marcada uma bicicleta rosa de marchas, cestinha e aros brilhantes, a esperava na garagem. Emburrada, agradeceu pelo presente e voltou para o quarto sem jantar. Dias depois, às escondidas, vendeu a bicicleta e comprou uma luneta pela metade do preço numa loja de antigüidades. Desde então a garotinha passava as noites em claro, observando a imensidão escura do céu, as estrelas de plantão; nomeando as constelações e povoando outros planetas com a imaginação. Se o pai perguntasse pela bicicleta, usaria o que aprendera nas aulas extra-curriculares do colégio. Encenaria uma tragédia grega onde garotinhas são vítimas de roubo, coerção física e Hércules chega atrasado. As garotas da sua idade sonhavam em ser veterinárias, médicas, advogadas, atrizes, estrelas da música pop(clones da Madonna ou vice-versa), enquanto as menos abastadas bastava uma casa com garagem, piscina e cerquinha branca – isso atendia satisfatoriamente suas necessidades burguesas. O gosto pela astronomia, assim como seu visual(Laura parecia uma hippie e era pelo menos 10 centímetros mais alta que as colegas de classe), despertavam inveja e chacotas rotineiras. Apelidaram-na de”Miss Rocket”. Era comum vê-la sendo indagada pelos colegas quando atrasava-se:”Não veio de foguete hoje?”O que foi?”Acabou o combustível?” – as indagações vinham acompanhadas de sonoras gargalhadas. Laura não reagia. Ouvia calada a tudo e a todos, pois esperava que se cansassem um dia. Até esse dia ninguém souber dizer onde acabava a tristeza, onde começava a garota. Foram anos difíceis, mas ela sobreviveu a tudo aquilo. Todavia esquecer, não esquecera, não pudera afinal. Não demorou até que se tornasse a primeira garota a ganhar o prêmio anual de física – concedido apenas aos melhores alunos e professores por sua colaboração e dedicação a ciência. Laura prestaria o exame para física, entretanto, os discursos inflamados do pai, desembargador aposentado, fizeram-na desistir do sonho de infância e escolher o curso de direito. Laura formou-se em direito, mas depois de ocupar durante três anos a cadeira macia e confortável de um escritório, cansou-se das cláusulas, tribunais, causas e ações e o latim vulgar dos colegas de profissão. Rescindiu seu contrato com o Diabo. Afinal, estava insatisfeita por excelência. Colocou seus pertences numa caixa de papelão, preservando o diploma moldado, o porta-retrato da formatura e a caneca de estimação decorada com estrelas. A lordose e úlcera que adquirira pegaram carona. Laura inscreveu-se no exame de uma das mais conceituadas universidades do mundo. Falhou vergonhosamente nas duas primeiras vezes. Na terceira vez por um ponto, um mísero ponto, não conseguira realizar o sonho, provando o gosto amargo do”quase”e, o quão pouco pode ser muito às vezes. Ingressou na universidade na quarta tentativa, sob os protestos do pai, a angústia da mãe, a desconfiança de amigos e a certeza do que queria.”A astronomia é o caminho mais curto para as estrelas” – disse orgulhosa e confiante no encerramento do discurso de admissão.

Laura despertou pela segunda vez, dirigiu-se a cozinha e estupefata, constatou que alguma coisa peluda fizera uma festa sem convidá-la. Antes que percebesse um extenso”putz”saltou da sua boca até a mesa – mordiscou os lábios censurando-os. A caixa de cereais roída, derramada sobre a mesa, não deixava dúvidas: ele voltara. Ela comprara algumas armadilhas para ratos, porém o fabricante não se responsabilizava pelo uso indevido, afinal, furões não são ratos, embora pertençam a mesma família. Laura bufou, pegou a pá perto da pia e com a ajuda de um pano, apagou os vestígios da travessura noturna. Vasculhou o armário, fogão e a geladeira em busca de algo prático, instantâneo e comestível – era adepta do”não faça, compre feito”. Não sobrara nada. A cidadezinha mais próxima ficava há uns 40 minutos de bicicleta, no entanto ela estava às voltas com a entrega de um relatório. Tinha um prazo apertadíssimo e as cobranças do instituto nacional de pesquisas espaciais. Caso cortassem sua verba, Laura já decidira o que fazer: venderia a idéia de casa-observatório para uma construtora moderninha qualquer. Conseguira a proeza de transformar um observatório abandonado, mal-condicionado, sujo e pequeno, num simpático e confortável lar, desde que você não se importasse com sofás e estantes disputando espaço com um telescópio soviético obsoleto, caleidoscópios artesanais e dormir coberto pelo céu. Laura saiu da cozinha arrastando as pantufas, sentou-se em frente a escrivaninha, ligou o velho Mac, acendeu a luminária em forma de lua. Digitou sua senha pessoal - disse um animado”bom dia”para o computador que inicializara. Workaholic incorrigível, amava-o, mas assim como o canto, a dança e a culinária, este era apenas mais um de seus amores não-correspondidos.

Seis horas depois Laura estava exausta e faminta. Ligou o celular – havia 4 chamadas não-respondidas e 2 mensagens na caixa postal. Ativou o viva-voz; Sara lhe parabenizara e dizia sentir saudades. Laura sorriu, discou alguns números, mas abortou a ligação. Se ligasse agora ouviria os sermões casuais dela:”Laura, o que você precisa é de um namorado! Há quanto não faz aquilo?” –“você sabe, né?!” – “aquele palavrão de 4 letras que os adultos geralmente fazem entre quatro paredes”. Sara diria tudo num tom debochado, recheado de metáforas pífias e ironia. A segunda mensagem era da mãe que implorava que ela voltasse logo – desejava felicidades e recomendava que se alimentasse direitinho.”Farei isso daqui a pouco, está bem?!” – Laura repetia em silêncio. Quando preparava-se para desligar o aparelho, notou que chegara uma nova mensagem de voz:”Laura, aqui é a mamãe outra vez. Esqueça esse computador, desligue a luminária e vá comer!” – “você não é uma planta; não realiza fotossíntese, entendeu?!”.”Beijos”: - JÁ ENTENDI, JÁ ENTENDI! – respondeu Laura exaltada. Laura então levantou-se, enrolou um cachecol xadrez no pescoço, pôs a touca; pegou a carteira no criado-mudo, calçou as botas pretas, desligou a luminária e colocou Mac para dormir no modo de espera. Caminhou até a bicicleta rosa de marchas, cestinha e aros enferrujados.

CONTINUA...

sábado, 20 de outubro de 2007

SOMBRAS, SOBRAS E SOBRADO

Ando só, descalço pelas ruas cheias de percalços do que fui; onde fui-se...Vago pelas lembranças vagas de meu passado. Um vagão descarrilhado. Canso. Sento-me aqui, cabisbaixo, cá debaixo de uma sombra que assombra o sobrado que restou em meus sonhos. Ouço passos na calçada(é a Vida que passa) Lembro-me da sua voz – há tempos não a via ouvia. Encontro-me nu e jogado. Fantasio. Imagino vê-la passando na esquina ao lado. Corro desesperado, e sôfrego, esfrego as mãos para não congelar. Faz muito frio. Procuro-te mas não lhe encontro. Para onde foi ou se foi afinal? Insano, rio: lembro que te esqueci.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

AURORA BORED

A Manhã me acordou atrasado. Era tarde demais!(hã?!) A Noite chegava às pressas e, eu, que já não tinha mais pressa, esperava solenemente pelo pôr-do-sol. Estou entediado. O Sol depõe a meu favor. E o Amanhã logo baterá a minha porta, dizendo:”tem alguém em casa?” – sorrindo insistirá:”tem alguém aí?”(existo, cogito e hesito ao mesmo tempo) Não sei o que dizer. Também não sei sorrir. Só-rio-somente-sozinho. A Manhã talvez saiba. Amanhã quem sabe. Hoje fujo...

ADENDO - AGRADECIMENTOS, AFINS E FAST-FOOD LITERÁRIO*

Após conversar com uma amiga, conclui que escrevo post’s muito longos. Pensei que seria interessante criar alguns textos curtos, independentes e despretensiosos e, intercalá-los com meus contos tradicionais. Não pensem que sou influenciado por críticas, sou sensível, o que é bem diferente de fato. Além disso quantidade não significa qualidade. Muitas vezes o excesso de palavras corrompe a intenção do autor. Acredito que é preciso não apenas inventar, mas”reinventar-se”constantemente – subverter os padrões literário-linguísticos sem hesitação. É preciso ousar para criar. Intitulei estes post’s de fast-food literário*porque são textos rápidos, dinâmicos e de fácil apreciação. Espero que este seja o primeiro de uma série promissora. A fotografia é mais uma cortesia de meu estimado amigo, comandante e camponês, Naki – obrigado over and over:)

sábado, 13 de outubro de 2007

INCÓGNITA

O Acaso é um daqueles sujeitinhos irônicos e destituídos de valores ético-morais; zomba das Probabilidades constantemente - pobres criaturas!. As coincidências são suas amantes devotadas - a Inspiração sua noiva. A estória*que contarei-lhes a seguir atesta minha conclusão:


"Só mais alguns metros, só mais alguns metros"Diasin repetia em silêncio enquanto atravessava o labirinto de escadas e corredores da antiga estação”Incógnita”. Após sete minutos incontáveis, Diasin enfim alcançou a plataforma de embarque. Observou apressadamente os arredores; não havia ninguém ou nada ali, exceto um banco de madeira velho e vermelho. O desgaste da tinta e a corrosão da madeira atingira um estágio irreversível. Quantas pessoas sentaram-se ali? Quantas esperaram minutos, horas, até dias por alguém? Quantas juras de amor incondicional àquele banco velho ouvira antes de ficar completamente surdo? Diasin imaginava quantas indagações sua imaginação ainda poderia conceber. Assim permaneceu, imóvel, por alguns instantes até voltar sua atenção para os trilhos desnivelados. Pareciam cansados de uma longa viagem. Passaram-se trinta minutos e Diasin permanecia estático – nada rompera aquele estado. Ele então enfiou a mão no bolso da calça, pegou algumas moedas sem valor da algibeira e, atirou-as lentamente nos trilhos. Ouvia atentamente o tilintar agudo da queda e bocejava durante o interim. O espetáculo já lhe entediara quando de repente, esgueirou seus olhos na direção do banco velho abandonado – ele não estava sozinho. Ajeitou os óculos com o dedo indicador e, incrédulo, constatou que havia mais alguém ali - uma figura demasiado peculiar por assim dizer. Tratava-se de uma jovem de estatura mediana, magra, cabelos curtos e negros, com duas pedras de ônix no lugar dos olhos, as pálpebras tingidas de âmbar; logo abaixo da esquerda havia um kanji saliente, impresso à nanquim provavelmente; tinha o nariz e os lábios finos e a pele alva como nuvens preguiçosas de um dia ensolarado. Um colar com um pingente na forma de adaga, o vestido negro até a altura dos joelhos, as luvas pretas de cetim, a meia-calça curiosamente desfiada e as sapatilhas num tom púrpura extravagante, lhe conferiam características exóticas e notáveis. Ela não estava sozinha. Um violino cuidadosamente envernizado dormia tranqüilamente em seu colo - o arco contava-lhe histórias até que adormecesse. Diasin fitava a figura da estranha jovem enquanto desconfiava dos próprios sentidos. Aquilo era surreal, pensava consigo. A jovem então levantou-se, pegou o violino pelo braço, caminhou lentamente na sua direção, aproximou-se o suficiente e, disse-lhe num tom de voz que oscilava entre o suave e agudo, que reconhecia o livro que ele carregava. Um livro repleto de mentiras bem-contadas e páginas devoradas por traças. Ela resolveu abruptamente indagar-lhe:


- Para onde vais cavalheiro?

- Para”Algum Lugar”minha gentil dama, entretanto, ainda não sei como chegar até acolá – o tom de voz de Diasin desapontaria um ouvinte mais sensível.


- Posso ajudar-lhe se quiser, afinal, meu destino fica pertinho daí – a jovem parecia convicta decerto.


- E poderia recusar uma oferta tão aprazível? – Diasin parecia satisfeito. A jovem sorriu por um instante e prosseguiu:

- De onde vens afinal?


- De algum lugar longínquo – os olhos de Diasin fitavam os próprios sapatos ao término da resposta.


- De fato tens coragem, pois viestes de tão longe e nem ao menos sabes para onde vais ! – a expressão de admiração desajeitada da jovem era digna de simpatia irrestrita.


- Não sei...Talvez seja apenas tolice – Diasin ansiava pelo trem como nunca agora.


- Tolices exigem uma grande dose de coragem – respondeu irresoluta a jovem.


Antes que houvesse tempo para a réplica(ainda que houvesse parecia impossível concebê-la)o diálogo foi interrompido pela chegada do trem. Diasin sentou-se ao lado da jovem e observou pela janela o banco velho enquanto abandonavam a antiga estação. Notou que esquecera alguma coisa. Deixara suas dúvidas ali.


17/12/1913


NOTA*: A garota, o violino e a estação existem de verdade. Como sei? Hmm...Digamos que eu estava acolá=)


ADENDO – AGRADECIMENTOS, AFINS E BATE-PAPO BALELA COM O AUTOR

Há uns 30, 40 ou 50(medidas quantitativas espaciais indefinidas –“incógnitas”)quilômetros de onde moro, existe uma antiga linha de trem abandonada. Imaginei que fotografar os trilhos dela seria o ideal – que eles expressariam a idéia de incerteza com relação ao futuro – que delineariam o conceito de Destino(Acaso)A atmosfera desolada do ambiente decerto tem um apelo estético irrefutável. No entanto, optei por esta fotografia, que pertence ao acervo de um amigo que mencionei no adendo de”Amantes e Opostos”. Eu, que a princípio imaginei trilhos enferrujados com o aspecto sépia ou em preto e branco, descobri que usá-la seria uma ótima oportunidade de abandonar, ao menos uma vez, todas as idéias preconcebidas que utilizo na construção de meus post’s. Gostei bastante do resultado. Trata-se de uma estória de época, o que causa um choque interessante entre imagem e texto – uma antítese pitoresca diria. Agradeço ao comandante(Naki), que apesar de estar acometido por uma crise temporária de”Parkinson”(vide a(in)definição da fotografia – hmm...Gosto do aspecto ocasionado casualmente rs), tirou uma fotografia, senão magnífica, digna de uma observação cuidadosa. Obrigado mais uma vez, caro amigo=]”THAT’S ALL FOLKS!”(sempre quis dizer isso!rsx)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

PREFÁCIO

Durante minha estadia numa província escandinava, conheci uma bela e jovem camponesa. Disseram-me que no campo encontraria a inspiração necessária para a conclusão de meu segundo livro(Espelho Submerso)Não mencionaram a formosura de uma habitante da região. Este encontro lembraria-me o que anos incautos de civilização me fizeram esquecer.
Todos os dias, logo que o Sol acordava e espreguiçava-se nas árvores senis do bosque da província, a jovem camponesa saía da casinha de madeira onde morava sozinha, pegava uma trouxa de roupas, sentava-se na beira de um riacho próximo e começava a cantarolar uma canção triste - bem baixinho, enquanto esfregava a anágua de um vestido branco. Parecia uma ninfa desolada. Após dias observando, encantado, a melodia belíssima da canção e, tomado por uma curiosidade inquietadora, não pude resistir; aproximei-me, fiz uma breve saudação e resolvi enfim indagar-lhe:

- Por que todo dia vens sentar-se na beira desse riacho e cantarola a mesma canção, senhorita?

- Porque perdi algo, senhor - respondeu serenamente a bela jovem. As mãos dela esfregavam compulsivamente a mancha escura no tecido.

- Perdoe minha ousadia, mas o que perdestes senhorita? - aquilo parecia incompreensível para mim. A jovem virou-se de costas para mim, colocou os pés na água, segurou o chapéu que um minuano matreiro ameaçava raptar:

- A minha Auto-Estima - seus olhos fitavam o Infinito numa expressão deveras melancólica.

Foi então que percebi o quão a jovem era bela, pois as águas límpidas do riacho refletiam meticulosamente sua graciosidade - ela ofuscava a sombra de peixes desavisados. A jovem tinha a pele alva, nariz e lábios delicados, as madeixas púrpuras cobertas por um chapéu de palha decorado com pedrinhas anis; usava um vestido amarelado, decerto banhado em trigo e os pés estavam completamente nus. Os olhos verdes exibiam tons que oscilavam conforme o humor e a incidência da luz. Ocultavam intenções incógnitas de fato. Prometi que ajudaria-lhe a encontrar o que perdera sem ao menos fazer idéia do que procurava. Ela então hesitou, seus olhos adquiriram um tom esmeralda fugaz, doravante voltaram-se para mim. Os lábios delicados, lentamente acompanharam o movimento sinuoso deles - culminaram num sorriso radiante. Naquele instante nada mais importava para mim...Nada. Descobri que sua Auto-Estima não afogara-se afinal.

A Pamela, dona do sorriso e os olhos, pertence esta estória.


ADENDO - AGRADECIMENTOS, AFINS E ROMANTISMO


O título original do conto é Espelho Submerso. Intitulei o post de”Prefácio”apenas por brincadeira. Trata-se do prefácio de um livro que nunca existiu, nunca foi ou será publicado - ou há muito foi esquecido. Esta é a única estória que escrevi em primeira pessoa. Fiz algumas alterações no texto original – agreguei alguns elementos novos e introduzi uma frase inédita no final. Acredito que o texto ficou mais conciso, uma vez que o original estava repleto de pontas soltas(incongruências logísticas)Definiria-o como uma espécie de mito de Narciso às avessas. Prefiro escrever em terceira pessoa, afinal, assim isento-me da responsabilidade oriunda do conteúdo(risos)Admiro a coragem do escritor norte-americano Edgar Allan Poe, que notabilizou-se pelo uso de uma narrativa em primeira pessoa, repleta de explorações anímicas auspiciosas e, não obstante, demasiado perigosas. Tudo isso muito antes de Freud estabelecer os rudimentos da psicoánalise. Inclusive, a verve romântica exacerbada da estória, deve-se em parte ao apreço que tenho por Ligéia, Morela, Berenice, Annabel Lee, outros contos e poemas românticos do autor. Também há uma referência as duas irmãs órfãs, Clara e Guida, protagonistas do romance”As Pupilas do Senhor Reitor(Julio Dinis)Lembro-me vagamente que as duas lavavam roupas num riacho, enquanto cantavam, encantavam e contavam suas desventuras amorosas. Se vi a novela? Não, não vi!(risos)Não assisto novelas¬¬. Porém li o romance homônimo. Não sou um discípulo de Lord Byron, mas esforcei-me para preservar as características típicas do romantismo. Se eu fosse escritor, viveria na Europa ou qualquer lugar frio, escreveria romances, poemas e canções de amor, seria escravo da boemia e morreria jovem, muito jovem! Na aurora da vida. Todavia, não sou e às vezes me pergunto se ainda dá tempo. A porta de emergência está entreaberta. Agradeço ao Júnior, companheiro de trabalho e ouvinte de meus devaneios cotidianos, que gentilmente cedeu-me a fotografia utilizada no post e ao Andrei da Foto Studio Paulinho, que escaneou-a e fez pequenas alterações na estrutura e coloração(afinal, eu não poderia esperar por algumas décadas¬¬), seguindo as exigências excêntricas de um certo Mr. Faraway . De fato, Andrei realizou um trabalho minucioso . Agradeço a paciência de ambos.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

FULANO, BELTRANO E SICRANO E O TEMPO

Fulano, cambaleante e paulista,
Atravessava a pista;
Bebera outra vez.
Tropeçava nas guias, pernas e vias
Vítima da embriaguez.
As idéias turvas, obscuras e nauseantes,
Ameaçavam sair pela boca a qualquer instante.
A bebida arrancara seu juízo,
Desvanecera seu equilíbrio
E nos transeuntes provocava risos.

Fulano não sabia, Beltrano não via, Sicrano se escondia...

Fulano, pai de família,
Bebia noite e dia
Sempre se metia em frias
Freqüentava a delegacia.
Esbravejava com o delegado:
- Doutor, não sou culpado!
E que não sabia o que fazia
Que aquilo tudo era covardia.
Acordava ao meio-dia
À noite não dormia.

Fulano não sabe, Beltrano não vê, Sicrano se esconde...

Ah Fulano! Um tremendo fanfarrão.
Oferecia pinga de alambique aos santos,
Aos anjos da guarda dava um trabalhão
Enquanto a mulher queixava-se aos prantos.
O vício era um indício
De algo estava errado
No fundo de um copo raso
As alegrias tinham prazo.

Fulano não saberá, Beltrano não verá, porque Sicrano se esconderá...

Fulano estava pele e osso
Afogava-se num copo cheio de mágoas
Chegara ao fundo do poço
Mas não havia água.
Fulano, então
Perdera a razão
Dizia para si mesmo
(“Não quero mais viver, não!”
“Viver pra quê?!”)
Esta indagação, a fulano, que também era João
Ninguém soube responder.

Fulano é alguém,
Beltrano e Sicrano também
João Ninguém.
Assim, haja o que houver...
Etcétera, etcétera e tal.
A Sorte escolhe quais-quer*
Esqueçam o plural!.

NOTA*: O hífen no quaisquer é proposital. Evitem acidentes ortográficos; façam de propósito;]


ADENDO – AGRADECIMENTOS, AFINS E POESIA

Pensei em postar os seguintes versos:”batatinha quando nasce, esparrama pelo chão. Menininha quando dorme, põe a mão no coração”. Todavia, pareceram-me familiares. Muito familiares. Desisti da idéia!^^’(risos)Não costumo escrever poemas. Embora trechos de meus contos exibam rimas e rítmica, não premedito; são versos ocasionais, quiça”acasoniais”!(risos)Este poema foi escrito de improviso. A literatura de Cordel, a verve poética Drummondiana e minha incompetência com os versos, serviram de base para sua construção. A métrica é imperfeita. Diverti-me com minha inexperiência estética durante o processo. Preciso praticar bastante. A estética empregada na poesia exige uma sensibilidade e disciplina absurdas. A imagem utilizada chama-se”Some Sad Guy” e pertence a galeria de Sally. Além de escrever poemas belíssimos, ela é capaz de criar o que denominei”Poesia Visual”. Gosto muito da ilustração. Ela expressa uma melancolia pungente, perturbadora e fascinante. O traço de Sally é extremamente criativo e, sobretudo, tocante(vide”The Dancer Without Legs” – agora inexplicavelmente renomeada como”Dancer”¬¬)Exagero? Hmm...Talvez. Desculpem-me. Minha admiração pela obra dela desconhece aquilo que chamam de”bom senso”. E dizer que ela faz tudo isso entre um milk shake, uma trufa de amarula e outra(esqueci alguma coisa, HONEY-you-are-ROCK?!rsx)Muito obrigado”mais uma vez”, Nah:)

P.S: Di’stante é apreciador incondicional do poeta lusitano Fernando Pessoa. Enquanto eu, um sonhador passional, continuo ano a ano sonhando à toa.
Para maiores informações sobre poesia visual visitem:http://www.saaally.deviantart.com/gallery/?offset=0

domingo, 2 de setembro de 2007

ANTES DA CHUVA*

Away estava preocupado. Já fazia duas horas que sentara-se ali. O dia quente e seco causava-lhe um desconforto visível e, observando à sua volta, não podia deixar de sentir uma ponta de inveja dos peixes coloridos do aquário ao lado. Perguntava-se por que não ligavam o ventilador. Olhando para os lados mais uma vez, viu alguns homens tomando cerveja alegremente e discutindo futebol. Embora nenhuma das atividades parecesse-lhe muito interessante, divertia-se imaginando o desdobramento da conversa. Num dos cantos, perto do balcão, um homem embriagado, sem camisa e descalço, tentava inutilmente convencer o balconista a vender-lhe bebida fiado. Away virou-se, encontrou as mesas vazias, com um menu solitário em cada uma delas e, na última, a mais afastada da entrada, havia uma azeitona acompanhada de um palito quebrado. Ele estava só. Não importava para onde olhasse. O copo com água já estava acabando – era o terceiro. Ouvia o locutor da rádio local aconselhar os ouvintes a darem uma volta no parque, clube ou tomarem um sorvete com seus respectivos entes queridos. A previsão do tempo não era nada animadora para os próximos dias. Faria muito calor e a umidade relativa do ar cairia vertiginosamente. Away não aceitava conselhos de estranhos, mas parecia cruel recusar quando imaginava flocos de neve cobertos com chocolate. Encarava o copo de água, pensava numa maneira de fazê-lo durar mais, uma vez que o balconista que o observava parecia bastante impaciente. Pegou o copo, hesitou um instante e, de um só gole, matou a sede e um pouco de seu orgulho também. Perdera a batalha. Acenou com um guardanapo de papel para o balconista, como se hastiasse a bandeira branca de rendição. O balconista com um tom de voz inconfundivelmente cínico, indagou-lhe:

- Mais um copo de água amigo? – o desdém no seu olhar era evidente.

- Não, não obrigado.Gostaria de um cartão telefônico – Away era um bom perdedor.

- 20, 40, 50 unidades?

- Hmm...Se eu comprasse o de 20 e usasse somente a metade dos créditos, vocês me reembolsariam?

- Acho que não amigo – o balconista não parecia tão confiante dessa vez.

- Foi o que pensei. Um de vinte unidades por favor – Away acertara-lhe com um tiro silencioso. ”A batalha só termina quando acaba amigo”, Away não cansava-se de repetir em silêncio enquanto deixava para trás um boteco, algumas moedas e um homem atordoado.

Away entrou numa cabine telefônica sem se importar com os cartões publicitários, retirou um papel amassado do bolso e discou os números nele pausadamente. Enquanto ouvia o telefone chamando, lia baixinho o anúncio de uma loja de conveniências. Away estava impaciente. Os ruídos da ligação já despertavam-lhe fortes sinais de irritação, mas ele procurava conter-se. Após um minuto uma voz sonolenta atendeu o chamado:

- Hã...Alô?

- BOM DIA! – Away procurou não economizar simpatia.

- Ah, é você...Que horas são? – Nah não poupava apatia.

- 11:30 da manhã.

- O QUÊ?! 11:30 DA MADRUGADA QUER DIZER! Espero que tenha uma boa desculpa Away! Aliás, você não tinha que trabalhar?

- É...Tinha – Away contemplou por um instante o silêncio, logo prosseguiu:

- Acho que agora sei porque ligações telefônicas são tão caras.

- É verdade?! Por quê?! – Nah indagou de maneira ingênua.

- Eles não cobram apenas o tempo gasto. Adicionam os ruídos também – os ouvidos de Away ainda doíam.

- HÁHÁHÁ! Eles cobram impostos pelos ruídos?! – Nah riu por um tempo – parou assim que percebeu o quão Away parecia aborrecido com a piada. Os ouvidos dele não achavam-na engraçada.

- Que tal tomarmos um sorvete? - disse Away.

- Tá tentando me subornar, é?!Você é estranho!

- O que acha? – Away sorria.

- Do suborno ou do sorvete?

- Hehe...Do sorvete.

- Só se for um de baunilha bem grande e você me der a casquinha do seu, topa?! Away pensou, fez algumas indagações inaudíveis, mas logo aceitou as condições. Away não sabia a diferença entre um sorvete de flocos e um de baunilha, porém achou desnecessário comentar.

- Onde você tá?

- No meio do Nada, mas tem bastante gente aqui – Away esforçava-se para não rir.

- Tá bom Sir.Engraçadinho, espere aí que já vou. Só deixe-me desamassar a cara e colocar as meias, tá?

- Tudo bem – Away colocou o telefone no gancho, pegou um cartão decorativo da cabine e caminhou em direção a um sebo próximo.

Nah levantou-se depois de convencer a Preguiça que era um fato isolado. Nah voltaria cedo, antes que ela fosse embora. Abriu o guarda-roupa, colocou uma saia preta vitoriana, uma camiseta branca com os dizeres”A Bored Girl”em negrito, as meias listradas em preto e branco; calçou a sapatilha preta com salto alto, pôs o colar cujo pingente era um retrato antigo da avó falecida, uma pulseira preta; arrumou rapidamente os longos cabelos negros, prendendo parte da franja com uma presilha azul, por fim colocou óculos rayban. O sol serviria de pretexto para ocultar os olhos inchados(“você é uma garota esperta”, pensava consigo)Pegou a bolsa e um guarda-chuva preto; despediu-se de Dorothy(uma guitarra strato vermelha)pendurada na parede, apagou as luzes e saiu em busca de Away.


NOTA*: O título original deste conto é”Nah Chuva”, entretanto, resolvi criar um subtítulo e dividi-lo em duas partes(não necessariamente homogêneas)O intuito é facilitar a leitura, tornando-a mais atraente; menos efusiva e extenuante. Também serviu de pretexto para a inserção da peculiar fotografia acima. A idéia de dividi-lo até instigou-me a criar uma trilogia(algo a la Matrix e Senhor dos Anéis)A seqüência seria o originalíssimo”Depois da Chuva”^^ - o que acham da idéia?!(risos)