quinta-feira, 26 de março de 2009

AO LADO DE/PERTO DA/EM FRENTE A

Ele procurava informações, não conseguia nada digno de nota. Tinha apenas a carta contendo a convocação para o exame, o endereço anexo, nenhuma informação adicional; alguma coisa que pudesse orientá-lo, dar-lhe um "norte"de verdade. Ele estava ficando nervoso. Repetia impropérios contra a instituição realizadora do concurso, o local da prova, o calor infernal, tudo - xingava baixinho, como quem diz "estou-irritado-muito-puto-da-vida-e-cansado". Depois de três tentativas frustradas, entrevistas falhas, resolveu perguntar para um senhor, dono de uma banca de jornais. O velho pensou um pouco, sobressaltado lhe passou o nome do ônibus errado, titubeou e se contradisse, lhe dando enfim a informação correta - Ele agradeceu, andou poucos metros e passou a esperar pelo ônibus. Não esperou muito tempo, embora o calor insuportável transformasse toda espera, por menor que fosse, em perpétua e compassiva. Dentro do ônibus pediu informações ao cobrador que se dispôs a lhe ajudar de muito má vontade - o cobrador disse que lhe avisaria, mas que Ele o avisasse com antecedência. Oras, como Ele poderia fazer isso? Não sabia onde se encontrava, quanto faltava até a universidade. Ele teve outra idéia: passou a observar cuidadosamente todos passageiros que ingressavam no ônibus, na esperança de reconhecer algum estudante da universidade. Não deu certo. Ninguém parecia com o que imaginava ser um estudante universitário. Notou a presença de uma garota, muito bonita, com uma pasta na mão, no entanto as roupas dela não pareciam com as de uma universitária, pensou. Avistou outras, mas os trajes despojados mostravam-lhe que estava definitivamente na pista errada. Notou que uma delas não carregava nada nas mãos, mas a mecha rosa no cabelo escuro reteve sua atenção. Ficou ali, olhando para a mecha que desbotava, pedia nova pincelada, mas que ainda despertava nele o fascínio pela beleza das peculiaridades femininas. Durante sua investigação inevitavelmente esbarrou em outros "atributos" da jovem, no entanto prefiro não comentá-los - era só a testosterona fazendo o papel dela. A mecha foi o que lhe manteve distraído até que a jovem saísse do ônibus. Ele viu um quarteirão inteiro tomado por fábricas de manequins. Via manequins de todos os tipos: homens, mulheres, crianças, manequins imagináveis, inimagináveis, passando pelos críveis e incríveis. Alguns estavam mutilados, possuíam só o tronco, outros foram decapitados, outros só tinham os membros inferiores e não era difícil encontrar versões da Vênus de Milo em cera ali. A viagem demorou bastante - Ele ainda desceu meio quarteirão depois da universidade, graças ao cobrador "muito prestativo" que se esqueceu e lhe esqueceu também. Ele pediu novas informações, encontrou a rua, o prédio errado, deu meia volta e finalmente alcançou os portões da universidade. Confirmou o endereço, voltou satisfeito, não sem antes fotografar as redondezas - caso precisasse se orientar usaria as fotos do celular; pareceu-lhe uma grande idéia a princípio, depois viu que não era nada especial - seria se Ele fosse um investigador, detetive de alguma série ou filme estrangeiro talvez. Teve problemas na volta, pegou o ônibus errado, o que custou-lhe muito tempo em caminhadas até a descoberta da linha de metrô mais próxima. Ele podia ter perguntado ao cobrador, este parecia mais receptivo que o anterior. O sujeito usava óculos escuros comprados no camelô e cantava os versos de algum "pagode mauricinho" - Ele achou melhor não interrompê-lo. "Este cara não pode ser minha fada madrinha", presumiu. Precisava de uma bússola, não tinha dinheiro para um GPS e não sabia se empresas de tecnologia experimental lhe aceitariam como coba, digo, voluntário no implante de um GPS interno. Ele teria que sair de madrugada no dia da prova, assim não correria o risco de se atrasar e ser desclassificado logo de cara. Se bem que ficar horas sentado, ver o sol nascer retangular, não é era nem um pouco poético...Nem um pouco mesmo! Mas quem disse que seria? Faria o possível e torceria pelo o que é bastante improvável, mas não é impossível.

quinta-feira, 12 de março de 2009

ESTÉREO

Lado Esquerdo:

Depois de muito tempo Ele voltava a escola onde concluira o ensino médio. Não havia tempo para prolongar nostalgias, visto que só estava interessado no seu histórico escolar. Enquanto a secretária(que curiosamente fora da turma dele)procurava por seu nome em pastas recheadas de arquivos empoeirados, uma professora notou a movimentação, aproximou-se da bancada e perguntou ao estranho se Ele fora seu aluno no passado. Ele respondeu depois de pensar 1/4 de minuto, que não, não lembrava dela - ela frustrou-se um pouco com a frieza do estranho. A secretária confirmou a história dele. A professora insistiu, perguntou se Ele tinha irmãos, se estes foram alunos dela. Ele deu o nome de seus irmãos, ela então se adiantou: disse que eles foram seus alunos e que conhecia muito bem um deles - Daniel, o irmão caçula. Havia um misto de desafeto e nostalgia na voz dela. Só então Ele reparou nos detalhes, foi além do cabelo loiro, as rugas bronzeadas que moldavam os olhos amendoados insinuantes da professora. Ela já atravessara a marca dos 40, mas mantinha-se vistosa e vaidosa, vestia uma calça jeans de um número menor, usava um batom vermelho-luxúria, sapatos pretos de sato alto e uma bata preta que destacava o decote avantajado. Ela lhe perguntou se Ele morava ali mesmo ou na capital, nunca o vira antes segundo ela. Ele achava aquela conversa toda muito estranha, mas entreteve a professora até a secretária encontrar o dito histórico cujo o valor tornara-se indispensável - sem adiamentos Ele se despediu. No ponto de ônibus lembrou de uma coisa: cerca de dois anos atrás, na época em que seu irmão caçula preparava-se pra concluir o segundo grau, chegou aos seus ouvidos um boato: aparentemente o irmão caçula se envolvera com uma professora. Juntando as peças do quebra-cabeças ficou fácil entender como seu irmão mantinha a média escolar sempre alta em algumas disciplinas(ahh moleque safado!) Talvez fosse paranóia, quem sabe estivesse superestimando as cafajestices do irmão, dando-lhe novas proezas, mas os olhos dela lhe deixaram com uma pulga atrás da orelha.

Lado Direito:

Ele resolvera dar uma folga as dúvidas. Pouco menos de uma hora depois, chegou a cidade escolhida, entregou o histórico escolar a diretoria de ensino responsável. Restava esperar a avaliação final. Caso lhe aprovassem haveria o processo de seleção de escolas que dependia primordialmente da colocação final do candidato. Podia ser enviado a uma escola rural, local onde os pais lhe chamariam de "cumpadê" e os alunos de "primo". Bastava se esforçar, dedicar-se com afinco e afetação, que ganharia bolo de milho caseiro toda semana. A troca do boné por um chapéu de palha pode lhe ajudar, assim se "enturmaria" mais rápido, imaginou...Só então pensou: também podiam lhe enviar pra alguma escola barra pesada, local onde pais lhe ignorarariam e alunos lhe chamariam de "mano", lhe ofereceriam um "bagulho" na hora do recreio. Desistiu. Não adiantava, aquelas suposições não o levariam a lugar nenhum. Acenou pro ônibus que vinha, ligou o mp3 e desligou-se delas.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

CRÔNICA PLUVIAL

Antes do início, deixe-me dar uma prévia do que Aquele-de-quem-falo-mas-sobre-quem-não-falo concluiu no fim: definitivamente ele precisava ingressar numa escola de natação - apesar de ser pisciano, não sabia nadar. Tá, tá sei que era patético não saber fazê-lo com idade que tinha, ninguém precisa lembrá-lo. Tudo estaria bem, uma vez que ele sempre evitou praias, rios, piscinas e quaisquer locais que alocam uma quantidade de água superior a uns 0, 25 metros cúbicos(a quanto equivale isso mesmo?) No entanto, num sábado de um dia qualquer ele saiu de casa em direção a algum lugar da metrópole. É assim que ele chama a parte do estado onde as coisas acontecem. Aquele-de-quem-falo-mas-sobre-quem-não-falo mora numa cidadezinha provinciana, uma espécie de prima pobre da Metrópole, um lugarzinho afastado do centro, agitação e quaisquer coisas realmente interessantes. O tempo naquele dia era estável e a temperatura amena, porém esta cresceu gradativamente durante o percurso dele. Ele não sabia exatamente como chegar ao seu destino, já que tinha apenas um mapa improvisado numa folha de papel amassada e um senso de direção duvidoso. Após andar quadras e quadras a pé, telefonar umas três vezes pedindo orientações e, suar como um cavalo, encontrou o dito e escrito local – as horas seguintes foram bem agradáveis de fato, apesar de uma senhora que já graduara-se nas artes balzaquiânicas ter lhe assediado e o colocado em maus lençóis. Bares escondem perigos atrás de mesas, cadeiras, especialmente copos de cerveja. Ele precisava voltar para casa no mesmo dia, sabia disso. Embora se dispusessem a pernoitá-lo, ele tinha que estar presente no aniversário de um amigo de longa data no outro dia. Logo pela manhã cuidaria dos detalhes com outros amigos. Voltou às pressas, agora sem muitas dificuldades, no entanto quando chegou a um certo ponto, foi surpreendido por um temporal, um daqueles típicos de filmes-catástrofe-hollywoodianos - uma daquelas enchentes que outrora só conhecia pelos noticiários. Agora imaginem um cara descendo uma marginal inundada às 11:30 da noite, correndo como um alucinado(corra Forrest, corra!) para não perder o último ônibus. A água invadira as calçadas e arrastava as coisas que encontrava pelo caminho. Aquele-de-quem-falo-mas-sobre-quem-não-falo desviava dos pontos mais alagados com dificuldades. Parou perto de um farol, a visibilidade estava muito ruim - ele sentia a falta dos óculos, embora a armação não contasse com um pára-brisas conjugado(coisa que só cientistas malucos ou sujeitos muito excêntricos devem ou deveriam possuir). Aquele-de-quem-falo-mas-sobre-quem-não-falo, num momento de otimismo efêmero, quase delirante, cogitou a aparição do resgate na forma de um velho de barba branca e longa em sua arca gigantesca, que bradaria: “ei, ei rapaz! Quer uma carona? Ainda não temos nenhum animal da sua espécie aqui”. Depois de uns 10 minutos avistou o último ônibus para a cidade vizinha. Correu com tudo que restara de suas pernas – não sobrara muita coisa. Quando entrou no ônibus, foi obrigado a suportar os olhares curiosos dos outros passageiros e a cara-de-pau do cobrador que lhe indagou com ironia e retórica: “você se molhou, hein?!"(como se aquilo fosse um momento raro de epifania) – Aquele-de-quem-falo-mas-sobre-quem-não-falo estava encharcado dos pés a cabeça. Sentia que um alevino podia saltar do seu All-star a qualquer momento. Não sabia o que tinha na coca-cola que tomara horas atrás, mas coisas como peixinhos coloridos saindo de suas meias reproduziam-se em sua cabeça. Assustou-se e investigando os arredores, percebeu que sua imaginação estava lhe pregando peças. Notou que a viagem estava demorando mais que o habitual - é que até então, não sabia que mudavam a rota durante este horário – cortavam outro município antes da conclusão da viagem. Logo um temor tomou proporções inesperadas. E se tudo não passasse de um plano arquitetado por uma quadrilha especializada em tráfico de órgãos? Sabe-se-lá onde e como ele acordaria! Sem um rim, numa terra estranha com estranhos que o olhariam com estranheza, como estrangeiro. Mudança de itinerário. Como desconhecia esse detalhe, deixou que sua mente o levasse até seus porões. Começara mais uma corrida contra o tempo. Aquele-de-quem-falo-mas-sobre-quem-não-falo tinha que estar no ponto à 01 hora da manhã ou teria que passar quatro horas na companhia de cães e bêbados. Apesar da rota inusitada chegou a tempo no ponto. A garoa substituira o temporal e não havia uma única luz acesa nas casas do quarteirão. Um sujeito estranho apareceu e começou a lhe fazer um bocado de perguntas, que ele respondia o mais laconicamente possível. Pontos de ônibus são chamarizes para este tipo de gente, imaginou. Olhou o sujeito estranho enquanto ele se distraia com alguma coisa alheia a seus olhos - ele não parecia um fantasma. Ao menos não encontrou nenhum resquício de atividade espectral/ectoplásmica nele. Riu por um instante: era uma pena, parecia-lhe um bom começo pra um conto a la "Goosebumps". Viu luzes vindo em sua direção, acenou pro ônibus, entrou e durante o trajeto, antes do fim linha, encontrou um conhecido – este não perdeu a oportunidade de caçoar do estado dele. E dizer que tudo começou com um telefonema, doravante, um convite(“venha até aqui, estarei te esperando...”) Moral da história: não aceite coca-cola se esta lhe parecer borbulhante demais – ali existe alguma coisa além da simples e tradicional reação química envolvendo o oxigênio.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

NAH CHUVA MAIS UMA VEZ: Mensagem Numa Garrafa...

- Tudo bem, tudo bem, mas você nunca ouviu o que dizem, que não se deve falar com estranhos, moça? – os olhos do estranho olhavam para os de Nah fixamente. O olhar dele intimidava Nah, entretanto, o choque inicial passara e ela já podia lidar com aquilo sem apelar para os óculos escuros na bolsa.

- Sim, já ouvi...Bastante. Minha mãe fez o dever de casa direitinho. Ensinou-me isso e muitas coisas, mas sabe, nunca entendi direito, talvez não devesse ter matado tantas aulas, whatever...Entende? – Nah não entendia porque estava contando tudo aquilo para um estranho, porém não se sentia mal com a idéia.

- Não, não entendo moça, desculpe: sou órfão.

- Sinto muito, eu não queria...- Nah ficara muito constrangida. Os cálculos da distância que separavam a calçada de seus pés se somavam a outros pensamentos desconexos. O estranho percebendo seu constrangimento, disse:

- Mas minha avó sempre me dizia isso também.

- Sério?! – Nah disse, surpresa.

- Não, não é sério moça. Menti para fazer...- antes que o estranho terminasse, Nah disse em uníssono:

- “Com que se sentisse melhor” – os dois riram ao mesmo tempo.

- Obrigado...Estranho. Devo te chamar assim ou você tem outro nome, rapaz? – Nah indagou sorridente.

- Ah perdão! Onde estão meus modos? Prazer sou o Away, mas pode me chamar de estranho se preferir – Way estendeu sua mão, apertou desajeitadamente a de Nah e recuou dois passos.

- Prazer, me chamo Nah Away, ou estranho “anyway” – Nah e Way riram de novo. Um riso tenso, nervoso, que consumia o que fora dito nos últimos três minutos.

- Então, agora que esclarecemos os desentendidos, poderia me dizer o que são aquelas cartas, Way? – Nah apontava o dedo na direção das que ainda podiam ser vistas dali.

- Nada especial...Versos roubados, canções de amor emprestadas, filosofias inventadas...Nada que mereça muita atenção, creio – Way disse num tom profundamente melancólico. Nah virou-se, apoiou o cotovelo sobre o parapeito do viaduto, olhou para Away, colocou o punho debaixo do queixo e disse:

- Parece legal. Way, acho que gosto de mentiras bonitas! – Nah voltou seu olhar para as cartas, com um sorriso na ponta dos lábios e o entusiasmo impresso nas sobrancelhas. Away esboçou um sorriso borrado, apagou-o ligeiramente, lembrou-se de Shakespeare, um dos charlatães mais brilhantes que conhecera, abriu a palma da mão, inclinou os dedos como se segurasse um crânio imaginário e disse declamando, num tom demasiado cômico:

- Não são mentiras madame; são verdades vencidas!

- Pois bem, que assim seja cavalheiro! – Nah embarcara na Caravana de Devaneios de Away.

Os guichês da estação reabriram, o alvoroço cessou, Nah despediu-se de Away apressadamente, apertando o passo e os pés para comprar o bilhete de embarque a tempo. Comprou o bilhete, arrependeu-se uma duas três vezes - relutava em cruzar a catraca quando a Sorte atendeu suas súplicas silenciosas:

- Nah! – disse Away. Nah parou, respirou fundo, virou-se e disse gastando a simpatia racionada do dia:

- O que foi?

- Você esqueceu isso – Away entregou um guarda-chuva preto para Nah. Ela agradeceu envergonhada, depois de alguns passos acenou e disse tchau timidamente. Nah sentia-se meio estúpida por encerrar a conversa assim, sem um posfácio, uma troca de telefones, email’ s, enfins sem afins, contudo não havia mais tempo. Passaram-se uma semana, duas, três, um mês talvez, o estranho não deixara nenhum vestígio de sua presença na estação. Nah já desistira de persegui-lo em sonhos, ruas, rostos, avenidas e esquinas, quando notou a presença de um objeto de plástico no parapeito onde conversara com Away. Aproximou-se, apressadamente pegou a garrafa de água mineral vazia e a abriu: ela continha um bilhete em papel-cartão que dizia “Away - Mentiras sob Encomenda”, e um número de telefone abaixo. Nah sorriu sozinha e solene, lendo o recado no verso do cartão, riu demasiadamente – ele dizia: “Faça um pedido, mas não ESFREGUE a garrafa!”.

domingo, 11 de janeiro de 2009

NAH CHUVA MAIS UMA VEZ: O Lá!

Ela normalmente dar-se-ia por satisfeita, mas o estranho no corredor parecia lhe desafiar; pedia que Nah transgredisse suas convicções. Nah aproximou-se do estranho, aproveitando o tumulto causado pelo fechamento repentino dos guichês da estação. O sujeito não notara a presença dela – continuava com os braços sobre o parapeito do viaduto, olhando para as cartas que se afastavam rapidamente. Nah estava à cerca de um metro e meio dele, do lado direito, apoiada sobre o mesmo parapeito - uma distância que considerava socialmente segura, afinal, se havia uma lei em que acreditava era a que dizia que dois estranhos não podem ocupar um espaço comum menor que um metro ao mesmo tempo. Nah abandonaria seu ceticismo aos poucos, deixando um pedacinho de lógica ali, um bocado de razão pra lá:

- Você sempre faz isso? – Nah se arrependera até o último fio da mecha roxa do cabelo pela indagação. De onde Diabos tirara aquilo? De algum manual de regras de etiqueta em liquidação? Nah envergonhara-se...Muito. Media com os olhos a distância que separava a calçada de seus pés. Respirava com alguma dificuldade, cabisbaixa, encarando as meias bicolores das pernas que tremiam. Tentava se acalmar contando mentiras para si mesma (“talvez ele seja surdo”, “quem sabe estava tão distraído que nem percebeu”, “ele é autista, isso!”, ”UFA! Essa foi por pouco dona Nah”) – Nah parecia mais tranqüila. Quando estava pronta para partir, a voz do estranho chegou até seus ouvidos:

- Não, só quando eles não estão olhando – o estranho apontava para alguns sujeitos vestidos com um uniforme laranja, sentados nos bancos de uma padaria, tomando café e assistindo o noticiário – o estranho não mudara de posição. A voz dele era grave, baixa e ele falava pausadamente, tomando cuidado para não atropelar seu léxico.

Depois de investigar por um instante os arredores, ele virou-se para Nah, olhou para a bolsa que ela carregava, a roupa dela e as meias bicolores - estas prenderam sua atenção durante meio tempo. Disse num tom de voz ainda mais baixo, como se estivesse contando um segredo e temesse ser descoberto a qualquer momento:

- Você é um deles? – os olhos do estranho repousavam sobre as meias bicolores de Nah. Nah respondeu abruptamente, rindo:

- Não, não sou um deles! – Nah não conseguia olhar para o rosto do estranho seriamente. Depois de se refazer prosseguiu:

- Olhe, nem estou vestida de laranja.

- Nada a impede de ser uma agente disfarçada ou estar à paisana – o estranho parecia perturbado. Nah não acreditava naquilo, o sujeito estava mesmo falando sério.

- Eu não sou uma agente disfarçada nem estou à paisana, então pode se acalmar, tá? – Nah evitava rir, mas a Ironia estava perto, muito perto, escondia-se na prosa e gestos.

domingo, 4 de janeiro de 2009

NAH CHUVA MAIS UMA VEZ: Estranhos Conhecidos.

Nah mais uma vez esperaria pela revanche. As discussões continuaram, os empates técnicos também, até o dia em que Nah desistiu de convencer a mãe que a menina-moça já era uma mulher. Trancou a faculdade de Pedagogia, arranjou trabalho numa empresa de eventos e alugou uma casinha, do outro lado da cidade. Ali não precisaria se preocupar com as meias espalhadas pela sala, as barras de chocolate vencidas no armário e nem prestaria contas sobre a origem e condições financeiras de um novo namorado. Nah gostava da nova vida; do cheiro de sabão em pó da lavanderia, dos milk-shakes de ovo maltine sem restrição nos finais de semana, dos copos de café e disposição na padaria da esquina, de dormir com a televisão ligada, vendo documentários e reportagens investigativas, andar seminua de madrugada pela casa ou passar a manhã inteira enrolada numa toalha de banho, conversar com Margô, uma mandrágora cultivada no jardim guardado por gárgulas de gesso, e Dorothy, uma guitarra strato vermelha, que passava horas no colo de Nah – enquanto ela sentava-se na frente do espelho, em cima do tapete rubro cheio de velas e marcas de cera, tocando e compondo iê-iês e lálálás - excentricidades que ela preferia manter em segredo, longe do olhar de terceiros. Nah provava as coisas casuais e corriqueiras, sem pressa e moderação, sentindo-se mais e mais lúdica a cada pedacinho de trufa arrancado suavemente, enquanto ia-e-voltava-e-ia do trabalho. Nah ampliara seu círculo social significamente, conhecera gente muito interessante, gente muito estranha, gente de verdade também (um rapaz que vendia balas de goma nas ruas, uma senhora com seus quitutes, um senhor que anunciava as frutas de sua barraca com apitos e um megafone...) Mas ninguém, ninguém mesmo, parecia com aquele sujeito engraçado que conhecera no viaduto que dava acesso ao corredor da estação de metrô. Ele parecia completamente indiferente ao espaço e tempo que o cercava, olhando para as pessoas que marchavam lá embaixo, em direção a seus quartos-hotéis, deveres e afazeres (quem sabe, talvez, mais um dia, outra vez, que seja) O rapaz tinha a barba por fazer, olhos pretos e o cabelo castanho escuro brigara com a escova de manhã; vestia um jeans desbotado e uma camiseta preta de uma banda underground que menos de 0,3% da população mundial ouvira falar, e calçava sandálias pretas que exibiam os pés pálidos – ele carregava uma mochila transversal e volta e meia, pegava a garrafa de água mineral guardada nela, dava alguns goles e a colocava de volta. Tirava um bloco de notas da bolsa, rabiscava algumas coisas ilegíveis, dobrava cuidadosamente as folhas, transformando-as em envelopes muito pequenos, com asas nas bordas e lançava-os no ar – o vento se encarregaria de levá-los embora, entregar as cartas endereçadas a alguém. Nah observava as cartas espalhadas no ar e com um alumbramento raro, imaginava o que o rapaz escrevera em cada uma delas: poemas, canções de amor, manifestos políticos, filosofias de rodoviária, versículos, pedidos de socorro, mensagens subliminares(aretècte e siat!) e muitas outras coisas passeavam por sua cabeça.

P.S: "É, essa semana demorou mais que o esperado pra chegar - problemas técnicos e uma indisposição costumeira atrasaram o processo"...(Di' stante Enfim em nota não-oficial)

domingo, 21 de dezembro de 2008

NAH CHUVA MAIS UMA VEZ: Guerrilha(Sucrilhos)

Não negocio com terroristas, dizia para Nah. Durante o café da manhã, enquanto Nah insistia em extrair mais algumas gotas de ketchup do frasco enrugado, Teresa repetia o de praxe:

- Já arrumou aquela bagunça, querida? Não me venha com guerrilhas fantasiosas outra vez, certo?

- Já vou... - Nah respondia bocejando, olhando para os lados à procura de uma saída de emergência. Todavia, sua mãe tratava de mantê-las fechadas.

- Termine de comer e vá. Já se passaram cinco minutos, sabia?

- Não posso – Nah dizia.

- A Nah de cinco minutos atrás não existe mais. Mortos saldam suas dívidas Dona Teresa - Nah ria. Aprendera um pouco de retórica nas apostilas de filosofia do cursinho.

- Bom, então espero que a nova Nah saiba lavar a louça e passar a roupa – Teresa dizia lentamente, saboreando cada sílaba.

- Quando minha mãe virou a madrasta má?! - dizia estupefata, Nah. Teresa colocava os óculos escuros, pegava a bolsa, virava-se de costas e, acenando dizia:

- Te vejo mais tarde...Tenha um bom dia Cinderela – pendurava avisos na porta do banheiro, da geladeira e do quarto de Nah antes de ir para o trabalho.