quinta-feira, 7 de julho de 2011

PRENDA

Diga a Prenda que mandei lembranças. Sei que tu não é pombo-correio nem um daqueles garotinhos que entregam correios elegantes em festas juninas, mas faça-me esse favor. Prenda, queria te enviar um poema embrulhado num eletrocardiograma. Sei lá. Loucura. Bobagem. Besteira. Coisa de gente boba e besta. Não dá pra fazer isso aqui (ainda). Também não posso te dar meu coração: o eletrocardiograma é apenas uma nota promissória.

sábado, 14 de novembro de 2009

AZEDU-ME

Chovera monotorrencialmente. A noite recolhia as nuvens desgarradas que restavam no céu. Um sopro de prosa ajudaria a desanuviá-lo: Ela. Branca, bela, loura, linda, moça, louca - ela assim-assaz, chupando limão com sal e lhe dizendo coisas doces. Mentiras? Talvez...Provavelmente. Não importava. Aquilo lhe fazia tão bem. Ele tinha uma vontade contrita, de não-ter-sido, de não-ter-estado. Recaída. Precisava urgentemente de uma injeção de ânimo. A única farmácia ficava longe. Já estava fechada. Perdera, perderam-se. Uma doideira desatinada assomava. Ele estacou, ofegou, virou-se, foi embora a passo firme e largo, desditoso e distante, engolindo as três palavras que o orgulho, medo, o inibira impedira de devolver. A consciência calava: silêncio era coisa mais prudente e sugestiva.

domingo, 8 de novembro de 2009

STANDBY-OFF

Amuado. Amofinado. Amargo. Falta-me verbo; sobram-me adjetivos.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

SOBRE ANNA: Ocaso.

Agora eram 5:49 da tarde. Estava quase na hora do programa predileto de Anna. Anna assistia seriados e desenhos animados antigos. Assistira tantas vezes que não importava quanto tempo ficasse sem vê-los, sempre teria a nítida sensação de déjà vu. Ela divertia-se imitando a fala e trejeitos de suas personagens prediletas na frente do espelho. Havia um mundo colorido, onde as coisas davam certo e tudo acabava bem, que custava pouco, muito pouco – a felicidade instântanea estava ao alcance de quase todos. Aquilo não lhe satisfazia, mas lhe entretia, fazia com que os pensamentos ruins fossem embora. Mas apesar dos esforços dela, eles logo voltavam para casa: conheciam direitinho o caminho. Anna acreditava que a fumaça do cigarro seria capaz de mantê-los afastados. Ela cogitava roer as unhas, porém o cheiro do esmalte preto, ainda fresco, virava-lhe o estômago. Experimentara o gosto da Nicotina pela primeira vez aos 14 anos, atrás do muro do colégio, diante o olhar incrédulo de uma Solitude anêmica e silenciosa. Engasgou, tossiu, pigarreou e assustada deixou o cigarro cair das mãos - apagou-o com a ponta dos pés e guardou o isqueiro Bic amarelo na mochila. Trocou os insetos que guardava em vidros de conserva pelas cinzas acumuladas no cinzeiro de balshita. Colou uma etiqueta no vidro com a inscrição ”As Cinzas de Anna”, fazendo uma alusão óbvia ao título de um filme que assistira entediada na sala de vídeo do colégio. Anna encontrara o cinzeiro numa visita escolar que fizera a um museu. Ele parecia tão sozinho. Anna notou que não haviam mais pinheiros ali. Sentia que algo bucólico se perdera. Descobria-se descoberta. Onde as crianças brincavam de esconde-esconde agora? Risadas altas e sorrisos metálicos inundavam seus pensamentos. Aquilo não duraria muito.

domingo, 6 de setembro de 2009

LÚDICO

Quando estou na biblioteca da escola onde trabalho, sinto-me como uma criança que chegou a Disneylândia pela primeira vez - tudo isso sem ter que passar pelo constrangimento de ser fotografado no colo de um cara fantasiado de Mickey ou Pateta.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

MADRUGANDO

Ele e dois amigos foram a capital ver a virada cultural. Sabiam que teriam que se virar para manter-se acordados, já que dormir naquela multidão, mesmo em turnos alternados de vigília, seria praticamente impossível. Eles estavam acompanhados de uma mulher. Ele já a conhecia de vista e conversara com ela uma vez sobre o filme Peixe Grande. Nada especial. O grupo viu shows, contou histórias, bebeu vinho barato, contou mais histórias, até que um membro sugeriu que fossem comer alguma coisa. Eles aproveitaram-se do fato de que ela sentira vontade de ir ao banheiro, unindo o útil ao necessário. Visto que não tinham muitas escolhas, adentraram um boteco fedorento qualquer; um desses recintos esquecidos pela vigilância sanitária. Era engraçado ver a reação, a expressão de nojo que tomara conta dela assim que viu o banheiro. Ele imaginou se ela se perguntava "isso é para o uso de seres humanos?". O local parecia algum set de filmes B norte-americanos de terror. As condições eram muito precárias e não havia tranca nas portas. Adivinha quem teve que ficar mais de 15 minutos guardando a porta do banheiro para a donzela apertada?. Ele que mal falava, foi escolhido sem resistência verbal para a tarefa inglória. Ele notou que alguns caras estavam lhe encarando. Também não parava de pensar no que faria se outra mulher aparecesse. Esta podia lhe confundir com um tarado, um pervertido sem-vergonha, sujeito sem moral que faria a alegria de presos numa penitenciária estadual. Ele estava bastante constrangido. Quando saiu do lugar(ele saiu um pouco antes do restante do pessoal), uma garota perdida de Campinas o abordou pedindo informações. Provavelmente a garota o confundira com um guarda de trânsito. O boné preto e a posição dele(que encontrava-se perto do farol)pareciam mais que suficientes para alguém com imaginação e problemas.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

P.S:

Pensava no que dizer, por onde começar, queria palavras bonitas, engraçadas, mas nada que parecesse papo de arquiteto(já notou que pra eles tudo deve ser feito sob medida?); queria algo espontâneo; me peguei pensando no significado de espontaneidade: ela não é absoluta. Talvez a capacidade de improviso é que torne alguém mais ou menos espontâneo - existe uma certa precognição que molda, às vezes refina, censura, enfim transforma o que pensamos em palavras - essa precognição em escala maior é a clarividência genuína, diria. Faz uns dez minutos que digito essas palavras, penso nelas há uma hora mais ou menos, é, já sei, não sou um cara espontâneo. Desculpa, temo não ter outra oportunidade tão cedo...Estou atrasado, mas não me diga que é tarde; isso parece muito tempo em qualquer fuso horário. Eu precisava fazer alguma coisa a respeito.

terça-feira, 28 de julho de 2009

A.P

Durante a viagem longa e cansativa que fazia para ir as aulas do meu curso, no segundo ônibus que pegava, certa vez vi uma cena que arrancou-me dos braços engessados da rotina. No coletivo havia uma senhora de fogo, pileque, embriagada, completamente bêbada se os adjetivos anteriores deixaram dúvidas. Ela passou metade do percurso importunando a moça que sentava-se do seu lado; visto que cantava muito mal versos desconexos de canções FM. A outra metade gastou mexendo com o cobrador, paquerando-o e o aborrecendo sem nenhum sinal de constrangimento. Ele podia mandá-la para o inferno, mas no estado que ela estava, duvido que chegaria(ou encontraria o caminho) até lá. Na volta da viagem, enquanto caminhava na calçada, trombei com um bêbado pedinte. Parece que atraio esse tipo de gente. Me pergunto se o desodorante que eu usava tinha mais álcool na composição do que o impresso no frasco.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

DILEMMA

Pombos são criaturas melancólicas. Não esqueço o dia em que vi um que parecia tentar suicídio. Ele vagava devagar de um lado para o outro do último andar de um prédio de muitos andares. Olhava para baixo, cabisbaixo desistia, repetia o ritual, ensaiava baixinho um "adeus Mundo cruel", e quando enfim se decidira, apareceu um grupo de pombos que o dissuadiu - suponho que era a "Turma do Deixa Disso". Aquilo não saiu da minha cabeça durante dias( Liberdade e solidão...Onde fica a divisão?)

sábado, 27 de junho de 2009

MUITO LONGE DE BELÉM

Ele sobrevivera a mais um natal, já se dava por satisfeito. Não houve a comoção familiar que tanto temera durante os dias que precederam a data. Exceto pelo fato de ter sido coagido a dar um presente de natal para alguém, não teve maiores contratempos - é, ele teve que presentear a sobrinha graças aos pedidos insistentes e incisivos da avó, uma mulher que fazia horas extras como sua mãe. Como não fazia idéia do que se dava a um bebê do sexo feminino, deixou que sua mãe escolhesse por conta própria - ela escolheu um vestido multicolorido; exibiu com orgulho para todos, anunciando que era um presente especialmente dado pelo filho. Ele teve que encarar os olhares desconfiados( dele?!) e constrangedores à sua volta. "Ela tinha que escolher um vestidinho cheio de cores espalhafatosas?". Se ao menos fosse um pretinho básico...Ahhh o que estava pensando?. Não acreditava em espírito natalino. Mas todas as madrugadas do dia 25, pouco depois do dia 24 colocar o casaco cinza e voltar para casa, os fantasmas de natais passados lhe visitavam.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

MODUS OPERANDI

Quinta-feira, durante uma dessas tempestades de fim de tarde que anunciam a chegada da época mais desagradável do ano(vulgo Verão), caiu um raio perto, muito perto da casa dele. Ele ouviu um estrondo, seu martelo vibrou, estremeceu, e um cheiro forte de fuligem entupiu suas narinas. Ele estava no computador, imagino que vocês tenham idéia do que aconteceu: isso mesmo, o cheiro ruim vinha do computador. O computador travou instantâneamente e atortoado ele teve que desligá-lo, pois o PC não respondia, coisa que já se acostumara depois de um relacionamento longo e conturbado. Assim que o religou e tentou reconectá-lo a internet, seu receio se tornou uma realidade: o discador não funcionava, embora a linha telefônica estivesse ativa e o diagnóstico do modem fosse positivo. Ele já pressentia, sabia, o modem queimara - a autópsia que realizou a posteriori indicava que o modem sofrera uma sobrecarga elétrica. Ele ficou muito preocupado a princípio, por pouco não atravessou a fronteira e entrou nos limites do Desespero, mas sua frieza e racionalidade, toda domesticidade aprendida ao longo dos anos o impediram de seguir em frente. Ele ligou para um amigo perito em informática que lhe devia dinheiro, favores, algumas bebidas e umas doses de consideração. Explicou o problema e ouviu os risos e deboches típicos dele antes de prontificar-se a lhe dar um auxílio técnico. Ficaram mais de meia hora no telefone, enquanto ele desmontava seu PC inteirinho seguindo as recomendações do amigo na linha. Não conseguiu remover o modem danificado, a plaquinha moribunda, por falta de ferramentas apropriadas - mas divertira-se bastante dissecando o Longínquo(esse era o nome do PC - ele gostava de nomear coisas inanimadas) Seu amigo prometeu que viria olhá-lo pessoalmente - disse que viria devidamente acompanhado das ferramentas apropriadas e um modem reserva, que segundo ele talvez estivesse em condições de uso. Se não desse certo, ele estaria encrencado mais uma vez: teria que desembolsar uma grana razoável, se submeter aos preços extorsivos praticados pelas duas únicas lojas de informática da cidade, correr atrás de manutenção especializada, além de prolongar seu recesso virtual temporário. O monitor do PC estava se comportando de uma maneira estranha ultimamente - ele sentia que o monitor parecia meio abatido, quiça desmagnetizado. O mês de Agosto trouxera as bruxas mais cedo.

sábado, 6 de junho de 2009

ITINERANTES

Era cada vez mais emocionante viajar com o serviço de transportes metropolitano paulista - ônibus lotados, figuras incomuns em um meio comum. Sobrava calor, desodorantes vencidos, bêbados, fanfarrões, mulheres obesas, fracassados de todos os tipos e gêneros. Ele procurava coisas singulares nos coletivos. Não era tão fácil. Entretanto, tinha duas oportunidades durante a semana. Na última vez encontrara um sujeito curioso: ele usava um daqueles óculos escuros vendidos a preços módicos em camelôs, trajes de surfista suburbano e o cabelo devidamente desgrenhado com gel sem álcool na fórmula. O cara sentara-se ao seu lado e, enquanto ele olhava para o lado de fora da janela procurando alguma coisa que afastasse o marasmo das pálpebras, o vizinho indesejado parecia hibernar. Logo sentiu algo pesar sobre seu ombro - o cara usava o braço para se apoiar nele! Ele pensou consigo:"se este cara tentar colocar a cabeça no meu ombro darei-lhe uma cotovelada" - reunindo toda força que sua discrição e educação habituais suprimiam. Parece que o estranho ouvira seus pensamentos. Se recompôs em seguida. Ele evitaria se sentar nos assentos de ônibus, mas isto só aumentaria as chances de lhe molestarem sexualmente, imaginava - os ônibus viviam lotados, era mão daqui mão dali, ninguém sabia explicar de onde tantas mãos vinham. Elas desrespeitavam as fronteiras das terras mais baixas, evadiam as estrangeiras, transformavam uma simples viagem numa ferrenha batalha pela integridade sexual.

domingo, 31 de maio de 2009

(IN)SORO

Estava vivo, decerto era a informação preambular primordial, visto que todo o resto que viria não lhe parecia mais que um ornamento, descrições vagas e breves de um estado quase contínuo. Continuava desempregado, contudo não lhe preocupava muito a condição, apesar de ser o alvo das piadas mais esdrúxulas nas rodas de amigos - ironizavam sua postura introspectiva, tecendo comentários jocosos a respeito de uma suposta entrevista. Também lhe escolhiam os cargos e empregos mais inusitados. Quem sabe agente funerário; tinha discrição, logo se tornaria funcionário do mês segundo contavam. Bibliotecário tinha alguns votos, embora a ausência de uma biblioteca municipal, tema levantado por um opositor ferrenho, tenha minado qualquer chance de eleição. Ele aproveitou o ócio forçado para ingressar e concluir um curso numa escola técnica. Precisava agregar alguma coisa ao currículo defasado - levou cerca de três meses e, contrariando seu pessimismo schopenhaueriano, obteve aprovação com a nota máxima. Obviamente o ócio lhe serviu para outras coisas também, não tão úteis de fato: tomava coca-cola com prozac, via filmes B, tocava, esfolava os dedos, estudava pdf's chatíssimos de legislação, artigos, constitucionalidades, estatutos, decretos, todo o blábláblá nas conjugações imperfeitas e mais que imperfeitas para concursos públicos(se inscrevia em todos que apareciam, exceto os de beleza) - e, nas horas vagas, poucas, saía de seu retiro intelectual, dava folga aos neurônios e vagava à deriva pela internet em busca de um pretexto que o mantivesse entretido até o sono chegar. A freqüência em chat's diminuira bastante - quiçá fosse a maturidade chegando. Ele sabia: ela estava atrasada. Falta-lhe a disposição e o comprometimento necessário - não gostava de pensar que tudo aquilo não passava de um passatempo. Ignorando-o o tempo passara.

sábado, 23 de maio de 2009

ANÚNCIOS E CLASSIFICADOS: Parte 2.

Teve mais trabalho do que imaginou, gastou mais sola dos sapatos e saliva do que costumara gastar, mas encontrou a clínica numa rua pouco movimentada, perdida e alheia a todo seu trabalho. Tocou o interfone, o atenderam, logo em seguida dirigiu-se a sala de espera. Ficou ali quase uma hora, lendo sem muita empolgação um exemplar de uma dessas revistas "politizadas". O exame audiométrico apontou uma leve perda auditiva no canal esquerdo, nada grave, decerto consequência de anos a fio ouvindo rock num volume humanamente absurdo. Estranho foi o exame clínico geral. O médico começou fazendo as perguntas de praxe: fuma, bebe, tem alguma doença crônica, usa algum tipo de remédio periodicamente, tem histórico de câncer na família(?), toda esta ladainha que ele já cansara de ouvir. Depois de saciar sua curiosidade programada(e paga), o médicou pediu que o rapaz se sentasse numa maca e aguardasse - mediu o batimento cardíaco do rapaz, pediu que ele inspirasse e respirasse profundamente, até aí nada demais, rotina; os problemas começaram quando o médico pediu que o rapaz levantasse a camiseta e mostrasse o peito e abdômen - o médico observou-os por alguns instantes e soltou a pérola "Tá tudo bem com as bolas e o saco, amigo?" - disse num tom que tentava demonstrar alguma espontaneidade. Foi mal-sucedido. As palavras dele chocaram-se com o Muro das Afetações - aquilo deixou o rapaz surpreso - esperava que o médico usasse uma linguagem técnica e apropriada, algo como testículos e escroto serviria, deixaria a indagação um pouco menos indiscreta. Assentiu monossilabicamente. O médico então pediu que o rapaz fizesse alguns movimentos "estranhos" com a mãos; dobrou os punhos dele, pediu que ele relaxasse(como ele poderia?!) Parecia que ele tentava fazer com que o rapaz"desmunhecasse" - e o rapaz não gostava nada da idéia. Após os exercícios com os braços e punhos(o rapaz queria acreditar que eram simples exercícios físicos, cujo único intuito era verificar o estado de suas articulações), ele pediu que o rapaz virasse de costas, alinhasse os pés, levantou a camiseta dele e pressionou suas costas com as mãos durante uns 15 segundos. Satisfeito, voltou para a mesa onde preencheu os dados na ficha. Pausa na sessão de aeróbica(aquilo parecia tudo, menos uma consulta médica)O rapaz então notou que tocava um hit gay do Simply Red na sala - não via um aparelho de som, imaginou que o som vinha do notebook em cima da mesa. Antes de terminar o médico ainda pediu que ele colocasse as mãos nos pés sem dobrar os joelhos. Podia ser paranóia, mas o rapaz não gostou da cara de satisfação do médico quando ele concluiu o movimento com êxito. Sentiu falta de uma cópia do juramento de Hipócrates. Lá Ética era coisa séria.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

ANÚNCIOS E CLASSIFICADOS: Parte 1.

Compareceu a empresa, atendendo a convocação recebida por telefone. Chegou poucos minutos antes da hora marcada, pegou informações com o zelador e se dirigiu ao departamento de recursos humanos. Notou que havia outro candidato à espera: ele sentava-se numa espécie de carteira escolar, assinalando coisas num conjunto de folhas. Antes que o novato pudesse investigar o que o outro candidato fazia com aqueles papéis, a secretária, uma jovem reconchuda com cara e pinta de professora severa do primário, pediu que o novato lhe entregasse o CPF e a carteira profissional. Ela entregou-lhe um amontoado de folhas, concedeu-lhe um breve tutorial sobre como o novo candidato deveria proceder. A primeira folha continha um teste aritmético; aquilo o assustou: embora não fosse difícil, envolvia números decimais e ele nunca escondera sua aversão por números, especialmente os desta classe. As duas folhas seguintes exigiam que o candidato fornecesse informações sobre experiências profissionais e dados pessoais. A última, em branco, servia para construção de uma redação de no mínimo dez linhas - o tema não poderia ser mais sugestivo, algo do tipo "por que você deseja trabalhar nessa empresa?". Ele se segurou para não rir. "Mais insosso impossível", imaginou. Resolveu os testes aritméticos gastando mais massa cinzenta que o de costume; preencheu os dados necessários e relatou presunçosamente(deu ares de importância vital, subsídios questionáveis, floreios dispensáveis, etc;) sobre suas funções na empresa em que trabalhava anteriormente. No entanto, o mais divertido foi a redação: nunca fora tão cínico e piegas daquele jeito. Usou jargões empresariais obsoletos, termos roubados de cadernos de economia, foi pedante desavergonhadamente. Escreveu duas versões: a primeira pareceu-lhe auto-indulgente demais. Depois que concluiu a "provinha", teve que esperar uma boa quantia de tempo: a secretária o esquecera ali. Pensou em chamá-la, mas tudo que conseguiu foi fazer sinais estúpidos e tímidos com as mãos - ela estava do outro lado, atrás de paredes de vidro - sentiu-se como um aluno do primário pedindo permissão para ir ao banheiro. Enfim, ela o atendeu e após uma pequena espera, a entrevistadora o chamou até sua sala. Hora da entrevista. Olhou rapidamente para a correção da "provinha", inerte na mesa, ao lado de uma velha máquina de escrever - aparentemente se saira bem no teste aritmético, e a redação...Bom, acho que só exigiam para comprovar que o candidato era mesmo alfabetizado. Não posso acreditar que engoliriam aquela baboseira toda que ele escrevera. Vocês se surpreenderiam com a cordialidade e interesse que a necessidade pode inserir num homem. Durante a entrevista ele respondeu as questões prontamente, tentando até ser simpático, exalar alguma espirituosidade; não foi fácil, não estava acostumado - é claro que encenou, e em certos momentos teve bastante trabalho. Um deles foi quando a entrevistadora lhe perguntou sobre um certificado, uma exigência contratual, visto que este comprova que o candidato está apto a operar determinado tipo de máquina. Ele fizera o curso de segurança na empresa que trabalhava, só que não pegou o certificado; se tinha pego não lembrava onde guardara. A verdade é que só o fez por obrigação - enquanto o instrutor dava as aulas ele imaginava alguma maneira "alternativa" de escapar do curso(alguma coisa que não lhe custasse o emprego) Não conseguiu encontrar. Disse a entrevistadora que sim, que fizera o curso, mas infelizmente esquecera-se do certificado - ela frisou a importância do certificado e depois fez mais algumas perguntas de praxe, o dispensando logo em seguida. Ele aguardou mais algum tempo. A secretária inicial lhe entregou um envelope com a solicitação de um exame admissional - às 13:00 de uma sexta-feira, num lugar que ele desconhecia. Todavia, ainda precisava dar um jeito de arranjar o maldito certificado ou estaria encrencado. Pensou quanto custaria um no mercado negro. Não podia descartar a possibilidade. Ligou para um amigo, este prontificou-se a ajudá-lo. Bastava lhe entregar uma cópia ou modelo e a falsificação não seria tão difícil. Ele deixou implícito dizendo "Nóis damu um jeito", uma espécie de código marginal descolado. Ainda existia uma chance remota de não recorrer aos préstimos do amigo, encontrar o certificado na empresa que deixara para trás meses antes - e como não tinha mais nada a perder(o emprego já se fora mesmo), pegou o telefone e discou alguns números. Do outro lado uma voz conhecida o atendeu.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

VITAE

Hoje ele concebera e imprimira seu currículo - esperou quase duas horas numa lojinha que presta serviços tipográficos variados, daquelas que estampam em todos cantos, retratos e paredes frases do tipo "Não diga a Deus que você tem um grande problema. Diga ao problema que você tem um grande Deus". - "O Senhor é meu pastor, nada me faltará" e "Só Jesus salva " são as variáveis. Os proprietários da loja podiam ao menos ser mais criativos, salutou. Ainda gastou a paciência racionada da semana corrigindo erros cadastrais do atendente - cinco vezes, cinco vezes, o cara abusara da sua escassa boa fé. Distribuiria as cópias dos currículos mais tarde - caso o resultado fosse negativo, apelaria para um amigo, aluno de Letras, cara letrado, calejado e pintado em artes. Ele dizia que podia elaborar um currículo "moderno" usando apenas recortes de jornais e colagens de todo tipo. Ele sabia que precisava fazer com que seu currículo se sobressaisse naquela pilha de papéis de escritório. Também podia usar seus contatos - pedir que alguns amigos dessem uma forcinha, cessassem as hostilidades temporariamente, mentisssem positivamente a respeito dele; inventassem qualidades imaginárias, etc - tudo era válido no momento. Ele sabe que seu currículo não é lá grande coisa, mas não é tão ruim, com um pouco de boa vontade alguma empresa podia lhe contratar pelo "conjunto da obra". Ele teve alguns probleminhas com os currículos impressos naquela manhã - muitos amassaram quando foram colocados na mochila. Tentou colocar uns livros em cima, como peso, o resultado não surtiu o efeito desejado: passaria-os com um ferro quente antes de entregá-los.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

CONDICIONAL

Após resolver algumas pendências burocráticas referentes a rescisão do contrato de trabalho, encontra um amigo na cidade, vagam e vadiam a tarde inteira e, não satisfeitos, assim que encontram um amigo em comum dão uma esticadinha até a casa dele. Passam a noite fazendo piadas e brincadeiras bobas, rindo feito bobos de coisas tolas, ironizando seriados antigos que amavam na infância, tomando café, vendo videoclipes e brincando com um esqueleto de brinquedo simpático e um violão velho, muito antigo mesmo, segundo o dono herança de um avô falecido. Quando se dão conta já passava da meia-noite, esfriara muito e garoava. Ele despede-se dos amigos, volta pra casa a pé e a pique, esquecera a blusa e não obstante calculava quais eram as chances de chegar em casa antes que uma hipotermia lhe pedisse carona. Depois de um banho quente, uma pizza requentada, uma escova de dentes desgastada, a água gelada, o mouse, o teclado frio e um rosto conhecido no papel de parede do monitor, resta-lhe a cama desarrumada e quem sabe umas três ou quatro horas de sono.

domingo, 19 de abril de 2009

RONIN

Foi transferido de setor no feudo onde vassalava dia-a-dia. Houve muitas mudanças durante suas férias; muitas cabeças rolaram, uma mulher assumiu a direção e impôs milhares de restrições ditadoriais aos vassalos(entenda-se por antigos funcionários). Ela era uma espécie de Dama de Ferro - de longe lembraria aquela antiga primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher, mas sem a típica elegância britânica. Apesar do comportamento subversivo, indisciplinado às vezes, ele foi salvo com a condição de trabalhar em outro setor e se comportar. Estava mais sossegado desde então; não por causa das condições - desconfiava que colocavam morfina no seu café-da-manhã. O fato é que lá passou a conviver com alguns caras que anteriormente só trombava no corredor. Naquela semana, a tardezinha, logo que voltou de um intervalo, encontrou um dos seus novos companheiros(e comparsas posteriormente) chupando limão com sal. Perguntou a ele como conseguia fazer aquilo - ele respondeu sem pestanejar:"chapa o coco domingo e vem trabalhar na segunda, daí você entende". Poxa, ele nunca imaginara que sal com limão era um remédio caseiro para ressaca. O que pôde imaginar mais tarde foi que químicos espertos patentearam a receita e venderam para as fabricantes do Engov, Sonrisal, Eno(as marcas escolhidas foram as mais citadas numa pesquisa que ele realizou nas dependências do feudo - um em cada três entrevistados; consumidores assíduos de bebidas alcoólicas, pés-de-cana, pudins de pinga, bebuns, paus d' água, cachaceiros, bocas de litro, bons de copo, blábláblá e derivados as citaram) A vitamina C também é um antigripal poderoso - no entanto, isso qualquer aluno do ginásio sabia. Seu novo companheiro(que lhe promovera a camarada em menos de seis horas) lhe ofereceu limão com sal várias vezes: ele, reticente, recusou todas - logo pensou o quão bizarro devia ser o gosto daquela combinação, enquanto esforçava-se para não salivar a contragosto. O cara que lhe oferecera a mistura era um sujeito vulgar, ignorante, grosseiro, mas tinha lá suas qualidades - pena que as lentes gastas dos óculos do camarada reticente não conseguiam enxergá-las direito. O reticente, e renitente de sobrenome, estava certo. Se alguma dúvida existia sucumbira depois daquilo, dera ali o último suspiro. Ele estava cercado dos exemplares mais estranhos da raça humana. Às vezes, se sentia num reformatório medieval. Todavia, não sabia bem o porquê nem explicar o que o fazia se sentir em casa.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

BASEADO NUM LIVRO


Cinco integrantes de religiões distintas(um rabino, um pastor, um padre e dois mórmons com lapelas na camisa com a inscrição Big Brother Brasil)estão sentados perto de uma fogueira, cada um deles possui um pequeno copo branco descartável em suas mãos - eles bebem goles do vinho São Tomé(ele não podia faltar afinal) enquanto alternam a leitura e discutem trechos de uma bíblia antiga, dando ênfase especial as parábolas e controvérsias apresentadas no livro sagrado. No centro, também sentado perto da fogueira, encontra-se um Cristo entediado, com a coroa de espinhos devidamente aprumada e que volta e meia tenta manifestar suas opiniões de maneira tímida e apática; dá meia volta e desiste, limitando-se a observar serenamente a discussão. Cristo olha incrédulo para garrafa de vinho e para o que vê. O pastor inicia a leitura com um trecho consagrado do salmo 23; faz uso de uma narrativa altiva, eloqüente e entusiasmada:"O Senhor é o meu pastor, nada me faltará..."- interrompe a narrativa no meio do parágrafo para bradar "aleluia" com toda força dos pulmões. Prossegue:"Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma. Guia-me pelas verdades da justiça por amor do seu nome". Os integrantes restantes acenam com a cabeça positivamente. Ele faz uma pausa curta e conclui:"Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo" - ele então fecha a bíblia. A garrafa de vinho chega as mãos do mórmon oficial, que ao tentar oferecer um copo ao "estranho"(assim tratam a figura de Cristo que até então ignoravam) derruba o conteúdo do copo acidentalmente nos pés de Cristo - o mórmon se prontifica a limpar os pés dele, lamentando-se com "I'm sorry' s" consecutivos – Cristo não se exalta, põe a mão na cabeça dele, faz gestos com a mão pedindo que ele se levante, enquanto o segundo mórmon levanta uma placa com legendas em hebraico arcaico equivalentes ao pedido de desculpas do mórmon desastrado. O restante do grupo prossegue com a leitura da bíblia. Dessa vez o rabino se encarrega de ler um trecho do velho testamento: ele narra a ira de Deus sob o povo egípcio, elucidando o castigo que manifestou-se através das dez pragas:""Então disse o Senhor a Moisés: levanta-te pela manhã cedo, e põe-te diante de Faraó, e dize-lhe: assim diz o Senhor, o Deus dos hebreus: deixa ir o meu povo, para que me sirva. Porque esta vez enviarei todas as minhas pragas sobre o teu coração, e sobre os teus servos, e sobre o teu povo, para que saibas que não há outro como eu em toda a terra."[Êxodo 8, 9] O ser onipotente mostra-se prepotente e nem de longe vê-se a bondade incondicional que lhe é atribuída. As atenções se dividem após o término do discurso do rabino. O padre faz-se de desentendido e volta sua atenção para os lados, os mórmons parecem não entender o que acontece e o pastor abaixa a cabeça, murmura palavras incompreensíveis tentando convencer-se de que Deus sabe o que faz. É chegada a vez do padre: ele inicia um trecho da parábola que conta as desventuras de Jonas no estômago da baleia:"Preparou, pois, o Senhor um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites nas entranhas do peixe. E orou Jonas ao Senhor, seu Deus, das entranhas do peixe. E disse: na minha angústia clamei ao Senhor, e ele me respondeu; do ventre do inferno gritei, e tu ouviste minha voz".[Jonas 2] Vendo o Cristo cabisbaixo, o padre pergunta: "o que há de errado, filho?". Cristo cansa-se de ouvir histórias da carochinha, levanta a cabeça, joga fora a coroa de espinhos, pega a bíblia, rasga algumas folhas, enrola maconha nelas, acende na fogueira, dá uma longa tragada no cigarro fresco, uma piscadela e entrega ao padre, que boquiaberto assiste toda a cena. O padre olha para os lados, vendo que todos fingem que nada aconteceu, coloca o cigarro de maconha na boca e dá uma bela tragada que culmina numa longa baforada. O padre então diz, com um sorriso irônico nos lábios e num tom sarcástico:"nada mal prum baseado num livro". As luzes se afastam, quando voltam focam de relance o que restou da cena: sentado e tranqüilo, um demoniozinho vermelho de pelúcia assa um marshmallow na fogueira.


quinta-feira, 26 de março de 2009

AO LADO DE/PERTO DA/EM FRENTE A

Ele procurava informações, não conseguia nada digno de nota. Tinha apenas a carta contendo a convocação para o exame, o endereço anexo, nenhuma informação adicional; alguma coisa que pudesse orientá-lo, dar-lhe um "norte"de verdade. Ele estava ficando nervoso. Repetia impropérios contra a instituição realizadora do concurso, o local da prova, o calor infernal, tudo - xingava baixinho, como quem diz "estou-irritado-muito-puto-da-vida-e-cansado". Depois de três tentativas frustradas, entrevistas falhas, resolveu perguntar para um senhor, dono de uma banca de jornais. O velho pensou um pouco, sobressaltado lhe passou o nome do ônibus errado, titubeou e se contradisse, lhe dando enfim a informação correta - Ele agradeceu, andou poucos metros e passou a esperar pelo ônibus. Não esperou muito tempo, embora o calor insuportável transformasse toda espera, por menor que fosse, em perpétua e compassiva. Dentro do ônibus pediu informações ao cobrador que se dispôs a lhe ajudar de muito má vontade - o cobrador disse que lhe avisaria, mas que Ele o avisasse com antecedência. Oras, como Ele poderia fazer isso? Não sabia onde se encontrava, quanto faltava até a universidade. Ele teve outra idéia: passou a observar cuidadosamente todos passageiros que ingressavam no ônibus, na esperança de reconhecer algum estudante da universidade. Não deu certo. Ninguém parecia com o que imaginava ser um estudante universitário. Notou a presença de uma garota, muito bonita, com uma pasta na mão, no entanto as roupas dela não pareciam com as de uma universitária, pensou. Avistou outras, mas os trajes despojados mostravam-lhe que estava definitivamente na pista errada. Notou que uma delas não carregava nada nas mãos, mas a mecha rosa no cabelo escuro reteve sua atenção. Ficou ali, olhando para a mecha que desbotava, pedia nova pincelada, mas que ainda despertava nele o fascínio pela beleza das peculiaridades femininas. Durante sua investigação inevitavelmente esbarrou em outros "atributos" da jovem, no entanto prefiro não comentá-los - era só a testosterona fazendo o papel dela. A mecha foi o que lhe manteve distraído até que a jovem saísse do ônibus. Ele viu um quarteirão inteiro tomado por fábricas de manequins. Via manequins de todos os tipos: homens, mulheres, crianças, manequins imagináveis, inimagináveis, passando pelos críveis e incríveis. Alguns estavam mutilados, possuíam só o tronco, outros foram decapitados, outros só tinham os membros inferiores e não era difícil encontrar versões da Vênus de Milo em cera ali. A viagem demorou bastante - Ele ainda desceu meio quarteirão depois da universidade, graças ao cobrador "muito prestativo" que se esqueceu e lhe esqueceu também. Ele pediu novas informações, encontrou a rua, o prédio errado, deu meia volta e finalmente alcançou os portões da universidade. Confirmou o endereço, voltou satisfeito, não sem antes fotografar as redondezas - caso precisasse se orientar usaria as fotos do celular; pareceu-lhe uma grande idéia a princípio, depois viu que não era nada especial - seria se Ele fosse um investigador, detetive de alguma série ou filme estrangeiro talvez. Teve problemas na volta, pegou o ônibus errado, o que custou-lhe muito tempo em caminhadas até a descoberta da linha de metrô mais próxima. Ele podia ter perguntado ao cobrador, este parecia mais receptivo que o anterior. O sujeito usava óculos escuros comprados no camelô e cantava os versos de algum "pagode mauricinho" - Ele achou melhor não interrompê-lo. "Este cara não pode ser minha fada madrinha", presumiu. Precisava de uma bússola, não tinha dinheiro para um GPS e não sabia se empresas de tecnologia experimental lhe aceitariam como coba, digo, voluntário no implante de um GPS interno. Ele teria que sair de madrugada no dia da prova, assim não correria o risco de se atrasar e ser desclassificado logo de cara. Se bem que ficar horas sentado, ver o sol nascer retangular, não é era nem um pouco poético...Nem um pouco mesmo! Mas quem disse que seria? Faria o possível e torceria pelo o que é bastante improvável, mas não é impossível.