Chovera monotorrencialmente. A noite recolhia as nuvens desgarradas que restavam no céu. Um sopro de prosa ajudaria a desanuviá-lo: Ela. Branca, bela, loura, linda, moça, louca - ela assim-assaz, chupando limão com sal e lhe dizendo coisas doces. Mentiras? Talvez...Provavelmente. Não importava. Aquilo lhe fazia tão bem. Ele tinha uma vontade contrita, de não-ter-sido, de não-ter-estado. Recaída. Precisava urgentemente de uma injeção de ânimo. A única farmácia ficava longe. Já estava fechada. Perdera, perderam-se. Uma doideira desatinada assomava. Ele estacou, ofegou, virou-se, foi embora a passo firme e largo, desditoso e distante, engolindo as três palavras que o orgulho, medo, o inibira impedira de devolver. A consciência calava: silêncio era coisa mais prudente e sugestiva.
sábado, 14 de novembro de 2009
AZEDU-ME
domingo, 8 de novembro de 2009
terça-feira, 27 de outubro de 2009
SOBRE ANNA: Ocaso.
domingo, 6 de setembro de 2009
LÚDICO
Quando estou na biblioteca da escola onde trabalho, sinto-me como uma criança que chegou a Disneylândia pela primeira vez - tudo isso sem ter que passar pelo constrangimento de ser fotografado no colo de um cara fantasiado de Mickey ou Pateta.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
MADRUGANDO
Ele e dois amigos foram a capital ver a virada cultural. Sabiam que teriam que se virar para manter-se acordados, já que dormir naquela multidão, mesmo em turnos alternados de vigília, seria praticamente impossível. Eles estavam acompanhados de uma mulher. Ele já a conhecia de vista e conversara com ela uma vez sobre o filme Peixe Grande. Nada especial. O grupo viu shows, contou histórias, bebeu vinho barato, contou mais histórias, até que um membro sugeriu que fossem comer alguma coisa. Eles aproveitaram-se do fato de que ela sentira vontade de ir ao banheiro, unindo o útil ao necessário. Visto que não tinham muitas escolhas, adentraram um boteco fedorento qualquer; um desses recintos esquecidos pela vigilância sanitária. Era engraçado ver a reação, a expressão de nojo que tomara conta dela assim que viu o banheiro. Ele imaginou se ela se perguntava "isso é para o uso de seres humanos?". O local parecia algum set de filmes B norte-americanos de terror. As condições eram muito precárias e não havia tranca nas portas. Adivinha quem teve que ficar mais de 15 minutos guardando a porta do banheiro para a donzela apertada?. Ele que mal falava, foi escolhido sem resistência verbal para a tarefa inglória. Ele notou que alguns caras estavam lhe encarando. Também não parava de pensar no que faria se outra mulher aparecesse. Esta podia lhe confundir com um tarado, um pervertido sem-vergonha, sujeito sem moral que faria a alegria de presos numa penitenciária estadual. Ele estava bastante constrangido. Quando saiu do lugar(ele saiu um pouco antes do restante do pessoal), uma garota perdida de Campinas o abordou pedindo informações. Provavelmente a garota o confundira com um guarda de trânsito. O boné preto e a posição dele(que encontrava-se perto do farol)pareciam mais que suficientes para alguém com imaginação e problemas.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
P.S:
Pensava no que dizer, por onde começar, queria palavras bonitas, engraçadas, mas nada que parecesse papo de arquiteto(já notou que pra eles tudo deve ser feito sob medida?); queria algo espontâneo; me peguei pensando no significado de espontaneidade: ela não é absoluta. Talvez a capacidade de improviso é que torne alguém mais ou menos espontâneo - existe uma certa precognição que molda, às vezes refina, censura, enfim transforma o que pensamos em palavras - essa precognição em escala maior é a clarividência genuína, diria. Faz uns dez minutos que digito essas palavras, penso nelas há uma hora mais ou menos, é, já sei, não sou um cara espontâneo. Desculpa, temo não ter outra oportunidade tão cedo...Estou atrasado, mas não me diga que é tarde; isso parece muito tempo em qualquer fuso horário. Eu precisava fazer alguma coisa a respeito.
terça-feira, 28 de julho de 2009
A.P
Durante a viagem longa e cansativa que fazia para ir as aulas do meu curso, no segundo ônibus que pegava, certa vez vi uma cena que arrancou-me dos braços engessados da rotina. No coletivo havia uma senhora de fogo, pileque, embriagada, completamente bêbada se os adjetivos anteriores deixaram dúvidas. Ela passou metade do percurso importunando a moça que sentava-se do seu lado; visto que cantava muito mal versos desconexos de canções FM. A outra metade gastou mexendo com o cobrador, paquerando-o e o aborrecendo sem nenhum sinal de constrangimento. Ele podia mandá-la para o inferno, mas no estado que ela estava, duvido que chegaria(ou encontraria o caminho) até lá. Na volta da viagem, enquanto caminhava na calçada, trombei com um bêbado pedinte. Parece que atraio esse tipo de gente. Me pergunto se o desodorante que eu usava tinha mais álcool na composição do que o impresso no frasco.
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