Sexta-feira, 17 de Julho de 2009
DILEMMA
Pombos são criaturas melancólicas. Não esqueço o dia em que vi um que parecia tentar suicídio. Ele vagava devagar de um lado para o outro do último andar de um prédio de muitos andares. Olhava para baixo, cabisbaixo desistia, repetia o ritual, ensaiava baixinho um "adeus Mundo cruel", e quando enfim se decidira, apareceu um grupo de pombos que o dissuadiu - suponho que era a "Turma do Deixa Disso". Aquilo não saiu da minha cabeça durante dias( Liberdade e solidão...Onde fica a divisão?)
Sábado, 27 de Junho de 2009
MUITO LONGE DE BELÉM
Ele sobrevivera a mais um natal, já se dava por satisfeito. Não houve a comoção familiar que tanto temera durante os dias que precederam a data. Exceto pelo fato de ter sido coagido a dar um presente de natal para alguém, não teve maiores contratempos - é, ele teve que presentear a sobrinha graças aos pedidos insistentes e incisivos da avó, uma mulher que fazia horas extras como sua mãe. Como não fazia idéia do que se dava a um bebê do sexo feminino, deixou que sua mãe escolhesse por conta própria - ela escolheu um vestido multicolorido; exibiu com orgulho para todos, anunciando que era um presente especialmente dado pelo filho. Ele teve que encarar os olhares desconfiados( dele?!) e constrangedores à sua volta. "Ela tinha que escolher um vestidinho cheio de cores espalhafatosas?". Se ao menos fosse um pretinho básico...Ahhh o que estava pensando?. Não acreditava em espírito natalino. Mas todas as madrugadas do dia 25, pouco depois do dia 24 colocar o casaco cinza e voltar para casa, os fantasmas de natais passados lhe visitavam.
Segunda-feira, 15 de Junho de 2009
MODUS OPERANDI
Quinta-feira, durante uma dessas tempestades de fim de tarde que anunciam a chegada da época mais desagradável do ano(vulgo Verão), caiu um raio perto, muito perto da casa dele. Ele ouviu um estrondo, seu martelo vibrou, estremeceu, e um cheiro forte de fuligem entupiu suas narinas. Ele estava no computador, imagino que vocês tenham idéia do que aconteceu: isso mesmo, o cheiro ruim vinha do computador. O computador travou instantâneamente e atortoado ele teve que desligá-lo, pois o PC não respondia, coisa que já se acostumara depois de um relacionamento longo e conturbado. Assim que o religou e tentou reconectá-lo a internet, seu receio se tornou uma realidade: o discador não funcionava, embora a linha telefônica estivesse ativa e o diagnóstico do modem fosse positivo. Ele já pressentia, sabia, o modem queimara - a autópsia que realizou a posteriori indicava que o modem sofrera uma sobrecarga elétrica. Ele ficou muito preocupado a princípio, por pouco não atravessou a fronteira e entrou nos limites do Desespero, mas sua frieza e racionalidade, toda domesticidade aprendida ao longo dos anos o impediram de seguir em frente. Ele ligou para um amigo perito em informática que lhe devia dinheiro, favores, algumas bebidas e umas doses de consideração. Explicou o problema e ouviu os risos e deboches típicos dele antes de prontificar-se a lhe dar um auxílio técnico. Ficaram mais de meia hora no telefone, enquanto ele desmontava seu PC inteirinho seguindo as recomendações do amigo na linha. Não conseguiu remover o modem danificado, a plaquinha moribunda, por falta de ferramentas apropriadas - mas divertira-se bastante dissecando o Longínquo(esse era o nome do PC - ele gostava de nomear coisas inanimadas) Seu amigo prometeu que viria olhá-lo pessoalmente - disse que viria devidamente acompanhado das ferramentas apropriadas e um modem reserva, que segundo ele talvez estivesse em condições de uso. Se não desse certo, ele estaria encrencado mais uma vez: teria que desembolsar uma grana razoável, se submeter aos preços extorsivos praticados pelas duas únicas lojas de informática da cidade, correr atrás de manutenção especializada, além de prolongar seu recesso virtual temporário. O monitor do PC estava se comportando de uma maneira estranha ultimamente - ele sentia que o monitor parecia meio abatido, quiça desmagnetizado. O mês de Agosto trouxera as bruxas mais cedo.
Sábado, 6 de Junho de 2009
ITINERANTES
Era cada vez mais emocionante viajar com o serviço de transportes metropolitano paulista - ônibus lotados, figuras incomuns em um meio comum. Sobrava calor, desodorantes vencidos, bêbados, fanfarrões, mulheres obsesas, fracassados de todos os tipos e gêneros. Ele procurava coisas singulares nos coletivos. Não era tão fácil. Entretanto, tinha duas oportunidades durante a semana. Na última vez encontrara um sujeito curioso: ele usava um daqueles óculos escuros vendidos a preços módicos em camelôs, trajes de surfista suburbano e o cabelo devidamente desgrenhado com gel sem álcool na fórmula. O cara sentara-se ao seu lado e, enquanto ele olhava para o lado de fora da janela procurando alguma coisa que afastasse o marasmo das pálpebras, o vizinho indesejado parecia hibernar. Logo sentiu algo pesar sobre seu ombro - o cara usava o braço para se apoiar nele! Ele pensou consigo:"se este cara tentar colocar a cabeça no meu ombro darei-lhe uma cotovelada" - reunindo toda força que sua discrição e educação habituais suprimiam. Parece que o estranho ouvira seus pensamentos. Se recompôs em seguida. Ele evitaria se sentar nos assentos de ônibus, mas isto só aumentaria as chances de lhe molestarem sexualmente, imaginava - os ônibus viviam lotados, era mão daqui mão dali, ninguém sabia explicar de onde tantas mãos vinham. Elas desrespeitavam as fronteiras das terras mais baixas, evadiam as estrangeiras, transformavam uma simples viagem numa ferrenha batalha pela integridade sexual.
Domingo, 31 de Maio de 2009
(IN)SORO
Estava vivo, decerto era a informação preambular primordial, visto que todo o resto que viria não lhe parecia mais que um ornamento, descrições vagas e breves de um estado quase contínuo. Continuava desempregado, contudo não lhe preocupava muito a condição, apesar de ser o alvo das piadas mais esdrúxulas nas rodas de amigos - ironizavam sua postura introspectiva, tecendo comentários jocosos a respeito de uma suposta entrevista. Também lhe escolhiam os cargos e empregos mais inusitados. Quem sabe agente funerário; tinha discrição, logo se tornaria funcionário do mês segundo contavam. Bibliotecário tinha alguns votos, embora a ausência de uma biblioteca municipal, tema levantado por um opositor ferrenho, tenha minado qualquer chance de eleição. Ele aproveitou o ócio forçado para ingressar e concluir um curso numa escola técnica. Precisava agregar alguma coisa ao currículo defasado - levou cerca de três meses e, contrariando seu pessimismo schopenhaueriano, obteve aprovação com a nota máxima. Obviamente o ócio lhe serviu para outras coisas também, não tão úteis de fato: tomava coca-cola com prozac, via filmes B, tocava, esfolava os dedos, estudava pdf's chatíssimos de legislação, artigos, constitucionalidades, estatutos, decretos, todo o blábláblá nas conjugações imperfeitas e mais que imperfeitas para concursos públicos(se inscrevia em todos que apareciam, exceto os de beleza) - e, nas horas vagas, poucas, saía de seu retiro intelectual, dava folga aos neurônios e vagava à deriva pela internet em busca de um pretexto que o mantivesse entretido até o sono chegar. A freqüência em chat's diminuira bastante - quiçá fosse a maturidade chegando. Ele sabia: ela estava atrasada. Falta-lhe a disposição e o comprometimento necessário - não gostava de pensar que tudo aquilo não passava de um passatempo. Ignorando-o o tempo passara.
Sábado, 23 de Maio de 2009
ANÚNCIOS E CLASSIFICADOS: Parte 2.
Teve mais trabalho do que imaginou, gastou mais sola dos sapatos e saliva do que costumara gastar, mas encontrou a clínica numa rua pouco movimentada, perdida e alheia a todo seu trabalho. Tocou o interfone, o atenderam, logo em seguida dirigiu-se a sala de espera. Ficou ali quase uma hora, lendo sem muita empolgação um exemplar de uma dessas revistas "politizadas". O exame audiométrico apontou uma leve perda auditiva no canal esquerdo, nada grave, decerto consequência de anos a fio ouvindo rock num volume humanamente absurdo. Estranho foi o exame clínico geral. O médico começou fazendo as perguntas de praxe: fuma, bebe, tem alguma doença crônica, usa algum tipo de remédio periodicamente, tem histórico de câncer na família(?), toda esta ladainha que ele já cansara de ouvir. Depois de saciar sua curiosidade programada(e paga), o médicou pediu que o rapaz se sentasse numa maca e aguardasse - mediu o batimento cardíaco do rapaz, pediu que ele inspirasse e respirasse profundamente, até aí nada demais, rotina; os problemas começaram quando o médico pediu que o rapaz levantasse a camiseta e mostrasse o peito e abdômen - o médico observou-os por alguns instantes e soltou a pérola "Tá tudo bem com as bolas e o saco, amigo?" - disse num tom que tentava demonstrar alguma espontaneidade. Foi mal-sucedido. As palavras dele chocaram-se com o Muro das Afetações - aquilo deixou o rapaz surpreso - esperava que o médico usasse uma linguagem técnica e apropriada, algo como testículos e escroto serviria, deixaria a indagação um pouco menos indiscreta. Assentiu monossilabicamente. O médico então pediu que o rapaz fizesse alguns movimentos "estranhos" com a mãos; dobrou os punhos dele, pediu que ele relaxasse(como ele poderia?!) Parecia que ele tentava fazer com que o rapaz"desmunhecasse" - e o rapaz não gostava nada da idéia. Após os exercícios com os braços e punhos(o rapaz queria acreditar que eram simples exercícios físicos, cujo único intuito era verificar o estado de suas articulações), ele pediu que o rapaz virasse de costas, alinhasse os pés, levantou a camiseta dele e pressionou suas costas com as mãos durante uns 15 segundos. Satisfeito, voltou para a mesa onde preencheu os dados na ficha. Pausa na sessão de aeróbica(aquilo parecia tudo, menos uma consulta médica)O rapaz então notou que tocava um hit gay do Simply Red na sala - não via um aparelho de som, imaginou que o som vinha do notebook em cima da mesa. Antes de terminar o médico ainda pediu que ele colocasse as mãos nos pés sem dobrar os joelhos. Podia ser paranóia, mas o rapaz não gostou da cara de satisfação do médico quando ele concluiu o movimento com êxito. Sentiu falta de uma cópia do juramento de Hipócrates. Lá Ética era coisa séria.
Quarta-feira, 13 de Maio de 2009
ANÚNCIOS E CLASSIFICADOS: Parte 1.
Compareceu a empresa, atendendo a convocação recebida por telefone. Chegou poucos minutos antes da hora marcada, pegou informações com o zelador e se dirigiu ao departamento de recursos humanos. Notou que havia outro candidato à espera: ele sentava-se numa espécie de carteira escolar, assinalando coisas num conjunto de folhas. Antes que o novato pudesse investigar o que o outro candidato fazia com aqueles papéis, a secretária, uma jovem reconchuda com cara e pinta de professora severa do primário, pediu que o novato lhe entregasse o CPF e a carteira profissional. Ela entregou-lhe um amontoado de folhas, concedeu-lhe um breve tutorial sobre como o novo candidato deveria proceder. A primeira folha continha um teste aritmético; aquilo o assustou: embora não fosse difícil, envolvia números decimais e ele nunca escondera sua aversão por números, especialmente os desta classe. As duas folhas seguintes exigiam que o candidato fornecesse informações sobre experiências profissionais e dados pessoais. A última, em branco, servia para construção de uma redação de no mínimo dez linhas - o tema não poderia ser mais sugestivo, algo do tipo "por que você deseja trabalhar nessa empresa?". Ele se segurou para não rir. "Mais insosso impossível", imaginou. Resolveu os testes aritméticos gastando mais massa cinzenta que o de costume; preencheu os dados necessários e relatou presunçosamente(deu ares de importância vital, subsídios questionáveis, floreios dispensáveis, etc;) sobre suas funções na empresa em que trabalhava anteriormente. No entanto, o mais divertido foi a redação: nunca fora tão cínico e piegas daquele jeito. Usou jargões empresariais obsoletos, termos roubados de cadernos de economia, foi pedante desavergonhadamente. Escreveu duas versões: a primeira pareceu-lhe auto-indulgente demais. Depois que concluiu a "provinha", teve que esperar uma boa quantia de tempo: a secretária o esquecera ali. Pensou em chamá-la, mas tudo que conseguiu foi fazer sinais estúpidos e tímidos com as mãos - ela estava do outro lado, atrás de paredes de vidro - sentiu-se como um aluno do primário pedindo permissão para ir ao banheiro. Enfim, ela o atendeu e após uma pequena espera, a entrevistadora o chamou até sua sala. Hora da entrevista. Olhou rapidamente para a correção da "provinha", inerte na mesa, ao lado de uma velha máquina de escrever - aparentemente se saira bem no teste aritmético, e a redação...Bom, acho que só exigiam para comprovar que o candidato era mesmo alfabetizado. Não posso acreditar que engoliriam aquela baboseira toda que ele escrevera. Vocês se surpreenderiam com a cordialidade e interesse que a necessidade pode inserir num homem. Durante a entrevista ele respondeu as questões prontamente, tentando até ser simpático, exalar alguma espirituosidade; não foi fácil, não estava acostumado - é claro que encenou, e em certos momentos teve bastante trabalho. Um deles foi quando a entrevistadora lhe perguntou sobre um certificado, uma exigência contratual, visto que este comprova que o candidato está apto a operar determinado tipo de máquina. Ele fizera o curso de segurança na empresa que trabalhava, só que não pegou o certificado; se tinha pego não lembrava onde guardara. A verdade é que só o fez por obrigação - enquanto o instrutor dava as aulas ele imaginava alguma maneira "alternativa" de escapar do curso(alguma coisa que não lhe custasse o emprego) Não conseguiu encontrar. Disse a entrevistadora que sim, que fizera o curso, mas infelizmente esquecera-se do certificado - ela frisou a importância do certificado e depois fez mais algumas perguntas de praxe, o dispensando logo em seguida. Ele aguardou mais algum tempo. A secretária inicial lhe entregou um envelope com a solicitação de um exame admissional - às 13:00 de uma sexta-feira, num lugar que ele desconhecia. Todavia, ainda precisava dar um jeito de arranjar o maldito certificado ou estaria encrencado. Pensou quanto custaria um no mercado negro. Não podia descartar a possibilidade. Ligou para um amigo, este prontificou-se a ajudá-lo. Bastava lhe entregar uma cópia ou modelo e a falsificação não seria tão difícil. Ele deixou implícito dizendo "Nóis damu um jeito", uma espécie de código marginal descolado. Ainda existia uma chance remota de não recorrer aos préstimos do amigo, encontrar o certificado na empresa que deixara para trás meses antes - e como não tinha mais nada a perder(o emprego já se fora mesmo), pegou o telefone e discou alguns números. Do outro lado uma voz conhecida o atendeu.
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